16 outubro 2006

Nunca ninguém soube porque razão aquele amor terminou exactamente no final do ano. Também não era importante saber-se. Não seria por alguém saber que a dor seria menor, que a compreensão do terminar (quando os sentimentos ditavam o contrário) seria maior. A vida tem destas impossibilidades, destas decisões difíceis que fazem crescer.
Quase 8 anos passados o telefone em casa tocou. Era ele. Ela soube que tinha sido ele, mesmo antes de lhe darem o recado na totalidade. Nos últimos meses ele tinha voltado a entrar na cabeça dela enquanto dormia. A dor tinha passado, a esperança que ele mudasse de ideias mantinha-se ao fim de todo este tempo, mas ela sabia ser impossível.
Encontraram-se ao fundo da Rua da Sofia, à beira da Câmara Municipal. Era Dezembro, algumas semanas antes do Natal. Cumprimentaram-se e falaram como se nunca tivessem estado separados. Das mudanças na vida de cada um, das pessoas que foram encontrando ao longo dos anos, das grandes e das pequenas novidades, dos amores actuais. A conversa fluiu facilmente até que ele… Sabes, foste tu a responsável pela grande opção que fiz na minha vida. De ir para França estudar Teologia, de ter escolhido servir a Deus. Ela sorriu, com vontade de chorar. Ele continuou… Precisava dizer-te isto. Foste uma das pessoas mais importantes da minha vida. Queria muito que estivesses presente no meu casamento. Aquela dor que ela pensava ter passado voltou. Forte, mas não o suficiente para a impedir de dizer que estaria lá, no dia marcado, com muito gosto, porque ele também tinha sido uma das pessoas mais importantes da vida dela… ainda era… pensou ela.
Dia marcado e ela apareceu em casa dele, para os costumeiros comes e bebes. Não sabendo o caminho para a igreja ele ofereceu-se para ir com ela. Ele agradeceu-lhe por ela ter aceite o convite e contou-lhe como amava a noiva. Ela sorriu, e colocou os olhos na estrada…
A cerimónia foi linda, a mais bonita a que ela alguma vez assistiu. Ele cantou para a noiva, e ela recordou-se do tempo deles, do poema que ele lhe deu, das palavras que ele lhe disse, dos beijos e carícias que trocaram, do primeiro olhar e do primeiro sorriso que tudo desencadearam. E sorriu. Apesar dele não ter sido o seu primeiro homem era como se tivesse sido.

13 outubro 2006

Palavras #1

"Durante alguns anos devíamos fazer uma cura de palavras e de escrita. Mudos e cegos até ficarmos curados. Há uma ténue e trágica ligação de dependência entre a vida e as palavras. É uma ponte de corda sobre um abismo. Não se pode viver sem pensar e não se pode pensar sem palavras. Mas as palavras, quando despojadas da vida, são a hemorragia, o esvaziamento da alma. A hemorragia das palavras está a perder a nossa civilização. Os homens e as sociedades estão a esvaziar-se. Vivemos uma existência anémica porque abusámos das palavras. Os discursos não param. Perdemos a nossa vida em discussões, em confissões públicas, em debates, em processos. Vai ver que vamos passar à história como a idade dos processos. Estamos a ser sangrados pelas palavras."

in Os Nós e os Laços - António Alçada Baptista

11 outubro 2006

Adolescentes - Amparo Bellido Sanjuan

15 anos. Ingénua, sonhadora, de sorriso e coração aberto. Tudo era simples nessa altura, até o amor. Uma viagem de estudo. Um olhar mais intenso e demorado; um sorriso sincero e envergonhado como resposta a esse olhar, e tudo começou… Nos dias seguintes o olhar e o sorriso deram lugar a palavras, depois a beijos e a carícias. Estava consumado aquele amor de adolescência. Tudo simples… Até que um dia surgiu o inevitável. Ele apareceu de rosto fechado, parecia que transportava o mundo em cima dos ombros. Ela percebeu logo, mas… não pode ser, ainda ontem ele me jurou amor eterno e me disse que não podia viver sem mim… Ele disse que tinha de terminar tudo, que continuava a gostar muito, mas não podia explicar… Tinham de terminar. 15 anos e não podia explicar?! Tudo era simples, como é que não podia explicar?! Continuaram a ver-se todos os dias, falavam-se como se fossem melhores amigos, olhavam-se como no primeiro dia… De quando em quando ela pedia uma explicação. Já tinha passado tanto tempo (um mês quando se é adolescente é uma eternidade)... Mas nada. Ele continuava mudo de explicações. Até que, numa outra visita de estudo, os amigos os obrigaram a falar. Não falaram. Olharam-se, tocaram-se e beijaram-se! Ela esperou pelo dia seguinte, ele prometeu que lhe explicaria tudo… E explicou. Que vivia amargurado por vê-la todos os dias e não a tocar, que dormia e acordava a pensar nela, mas… mas o quê? Perguntou ela… Vamos voltar mas no final do ano teremos de terminar… disse ele. E explicou-lhe tudo. Ela concordou, inconscientemente na esperança que até ao final do ano ele mudasse de ideias. Mas não mudou. O final do ano chegou e todos foram apanhados de surpresa. Mas como aconteceu, porque aconteceu? Ninguém sabe, eles não contam.

10 outubro 2006


"Cantava em inglês, com acentuado sotaque francês. Is this the evening of the day, I sit and watch the children play. Por vezes, quando não se lembrava das palavras certas, terminava deliciosamente em surdina."
in Os Emigrantes, W. G. Sebald

26 setembro 2006

O início é sempre duro...