"As espécies que não desenvolveram a escrita valem-se da memória instintiva. O salmão sabe o caminho do lugar onde nasceu sem ter que consultar um parente ou um mapa.(...) Já o Homem pode ser definido como o animal que precisa tomar nota." Luís Fernando Veríssimo
23 outubro 2006
Chuva

Musician in the rain - Robert Doisneau
"as coisas vulgares que há na vida
não deixam saudade
só as lembranças que doem
ou fazem sorrir
há gente que fica na história
na história da gente
e outras de quem nem o nome
lembramos ouvir
são emoções que dão vida
à saudade que trago
aquelas que tive contigo
e acabei por perder
há dias que marcam a alma
e a vida da gente
e aquele em que tu me deixaste
não posso esquecer
a chuva molhava-me o rosto
gelado e cansado
as ruas que a cidade tinha
já eu percorrera
ai... o meu choro de moça perdida
gritava à cidade
que o fogo do amor sob a chuva
há instantes morrera
a chuva ouviu e calou
o meu segredo à cidade
e eis que ela bate no vidro
trazendo a saudade"
Jorge Fernando
http://www.youtube.com/watch?v=OpExb2hCYTs&mode=related&search=
19 outubro 2006
18 outubro 2006
Palavras #2

Avenida de La Vida II - Bertram Bahner
"Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte."
Alexandre O'Neil
16 outubro 2006
Quase 8 anos passados o telefone em casa tocou. Era ele. Ela soube que tinha sido ele, mesmo antes de lhe darem o recado na totalidade. Nos últimos meses ele tinha voltado a entrar na cabeça dela enquanto dormia. A dor tinha passado, a esperança que ele mudasse de ideias mantinha-se ao fim de todo este tempo, mas ela sabia ser impossível.
Encontraram-se ao fundo da Rua da Sofia, à beira da Câmara Municipal. Era Dezembro, algumas semanas antes do Natal. Cumprimentaram-se e falaram como se nunca tivessem estado separados. Das mudanças na vida de cada um, das pessoas que foram encontrando ao longo dos anos, das grandes e das pequenas novidades, dos amores actuais. A conversa fluiu facilmente até que ele… Sabes, foste tu a responsável pela grande opção que fiz na minha vida. De ir para França estudar Teologia, de ter escolhido servir a Deus. Ela sorriu, com vontade de chorar. Ele continuou… Precisava dizer-te isto. Foste uma das pessoas mais importantes da minha vida. Queria muito que estivesses presente no meu casamento. Aquela dor que ela pensava ter passado voltou. Forte, mas não o suficiente para a impedir de dizer que estaria lá, no dia marcado, com muito gosto, porque ele também tinha sido uma das pessoas mais importantes da vida dela… ainda era… pensou ela.
Dia marcado e ela apareceu em casa dele, para os costumeiros comes e bebes. Não sabendo o caminho para a igreja ele ofereceu-se para ir com ela. Ele agradeceu-lhe por ela ter aceite o convite e contou-lhe como amava a noiva. Ela sorriu, e colocou os olhos na estrada…
A cerimónia foi linda, a mais bonita a que ela alguma vez assistiu. Ele cantou para a noiva, e ela recordou-se do tempo deles, do poema que ele lhe deu, das palavras que ele lhe disse, dos beijos e carícias que trocaram, do primeiro olhar e do primeiro sorriso que tudo desencadearam. E sorriu. Apesar dele não ter sido o seu primeiro homem era como se tivesse sido.
13 outubro 2006
Palavras #1
"Durante alguns anos devíamos fazer uma cura de palavras e de escrita. Mudos e cegos até ficarmos curados. Há uma ténue e trágica ligação de dependência entre a vida e as palavras. É uma ponte de corda sobre um abismo. Não se pode viver sem pensar e não se pode pensar sem palavras. Mas as palavras, quando despojadas da vida, são a hemorragia, o esvaziamento da alma. A hemorragia das palavras está a perder a nossa civilização. Os homens e as sociedades estão a esvaziar-se. Vivemos uma existência anémica porque abusámos das palavras. Os discursos não param. Perdemos a nossa vida em discussões, em confissões públicas, em debates, em processos. Vai ver que vamos passar à história como a idade dos processos. Estamos a ser sangrados pelas palavras."in Os Nós e os Laços - António Alçada Baptista


