02 novembro 2006

A Aldeia

Toscane IV - Franz Heigl

Ninguém me consegue convencer que uma aldeia não é um ser vivo. Ela nasce algures no tempo, sempre pelas mãos dum homem heróico e extraordinário. Depois vive dia após dia e, mais tarde ou mais cedo, acaba por declinar e morrer.
É uma vida inquietante, assim como a de todos nós, que tem os seus momentos de rotina pontuados aqui e ali com um sabor diferente.
Há sempre aquelas que se destacam: vivem não ao sabor do vento mas contra a maré, possuem peculiaridades que as tornam deliciosas e amargas. Conheço uma assim. Nasceu no meio de serras, lutou pela liberdade, sem medo, em 1958, mas mesmo assim viu-se envolta na monotonia que apanha todos. Contudo, no início de cada novo ano a Aldeia começa a fervilhar. Algo acontece que faz sacudir essa monotonia. Os preparativos iniciam-se: o Carnaval é daí a poucos meses. É preciso falar com a Graça… e com o Fernando também. Não te esqueças, esse ajuda sempre. Todos os braços são poucos para montar o Cortejo. Mas há qualquer coisa mais: movimentações de bastidores, troca de informações… As duas semanas anteriores ao Carnaval são uma azáfama. As filas no posto médico diminuem vertiginosamente: deixa de ser preciso ir apanhar vez às 6 da manhã. A Aldeia trabalha a dobrar e depois sai para a noite para tocar às campainhas, fazer badalos e caqueiradas, fugir pelas ruas e gritar É Carnaval, ninguém leva a mal. Mas há sempre uma noite mais especial, mais aguardada… A noite em que as informações recolhidas tomam corpo de quadras. A noite em que as máscaras caem e nenhum solteiro ou solteira está a salvo da verdade. Noite complicada noutros tempos: quase uma sentença de morte para alguns. Nos dias de hoje é a noite em que a Aldeia se liberta, sai do seu caminho responsável e se comporta mal.
Depois dessa noite mal dormida e do dia de Carnaval a rotina volta a instalar-se. É preciso limpar o lixo da festa. É preciso voltar a acordar às 6 da manhã para conseguir uma consulta. Mas a Aldeia sabe que para o ano há mais, e que são esses momentos de loucura e irresponsabilidade que lhe permitem viver.
Ninguém me consegue convencer que esta Aldeia não é um ser humano.

01 novembro 2006

Porque parou, parou porquê?!



Imagina - Tom Jobim e Chico Buarque, 1983

31 outubro 2006

Foi bonita a festa, pá *

"O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca
Quando me beija a boca
A minha pele inteira fica arrepiada

E me beija com calma e fundo

Até minh'alma se sentir beijada, ai



O meu amor

Tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos

Viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes

Depois brinca comigo

Ri do meu umbigo

E me crava os dentes, ai


(...)"


O meu amor
- Chico Buarque 1978

* primeira frase da segunda versão da música Tanto Mar

30 outubro 2006

Palavras #3

"E mesmo, pensar nesta coisa tão sublime e rudimentar – a fala (...). Porque nós não reflectimos. A fala. A transubstanciação da matéria, das coisas. A quantidade espantosa de músculos, de instrumentos vocais, para dizer esta coisa simples que é por exemplo «cu». A quantidade espantosa de movimentos, de adaptações. Sem falar já da trapalhada dos comandos cerebrais. Ou dos arranjos emotivos que acompanham a operação, com o seu trabalho nervoso que é regulado pela educação que teve e a religião que nos deram, a as amizades e os ódios e as inclinações sanguíneas. Ou do esforço enorme para dar ao fole que faz vibrar as palhetas do som. E depois, falar é tão vagaroso. Dizer por exemplo «está uma tarde pavorosa de calor» leva um tempo imenso a despachar. A gente diz a primeira palavra, que leva já muito tempo, e tem de esperar pela segunda que também, e ainda pela terceira, até que já não haja mais nenhuma. Mas o calor é rápido, sente-se logo. E escrever ainda é mais longo e ler é mais trabalhoso. Há os caracteres que se desenham, e há depois a sua transposição para os sons que querem dizer, e há depois todo um complicado trabalho dos mecanismos de inteligência memoria imaginação – uma fala é tão rudimentar."

in Para Sempre - Vergílio Ferreira

26 outubro 2006

Camisola 10


"Eu quero ser para ti a camisola dez
Ter o Benfica todo nos meus pés
Marcar um ponto na tua atenção
Se assim faltar a festa na tua bancada
Eu faço a minha última jogada

E marco um golo com a minha mão."

Zorro – João Monge e João Gil


Mãe… Sai da frente da televisão… Vai começar o jogo. Quantas vezes disse eu isto? Perdi-lhe a conta. Nessas noites as unhas não duravam muito e o nervosismo reflectia-se na quantidade de vezes que o pé batia no chão. Consigo lembrar-me de noites europeias gloriosas (4-4 em Leverkusen quando tudo parecia perdido), de jogos do campeonato que ficaram para a história (o 3-6 em Alvalade), de jogadores que ficaram esquecidos (Thern, Valdo, Paneira).
Hoje não consigo compreender o que me fazia ter esse fascínio e paixão (ou seria obsessão?!) pelo futebol, pelo Benfica…
Algo inexplicável, um mistério da vida.;)

25 outubro 2006

Mais real do que a realidade

"O carro avançava a caminho de Sintra, sem grande velocidade. Fez-se um silêncio. A Teresa recitou:
- «No meu Chevrolet, pela estrada de Sintra...» - e depois perguntou:
- Achas que o Fernando Pessoa tinha carta de condução?
O Gonçalo respondeu pronto:
- O Fernando Pessoa não tinha. Quem tinha era o Álvaro de Campos...
A Teresa esteve uns segundos sem perceber a graça, mas depois reparou:
- Que estupidez!... Não é que eu ia acreditando!...
- Não se aflija. Aquilo tudo é tão real... mais real do que a realidade..."

in Os Nós e os Laços - António Alçada Baptista

23 outubro 2006




"yes,
us people are just poems
we're 90% metaphor
(...)"

Self Evident - Ani DiFranco

Chuva












Musician in the rain - Robert Doisneau


"as coisas vulgares que há na vida
não deixam saudade
só as lembranças que doem
ou fazem sorrir
há gente que fica na história
na história da gente
e outras de quem nem o nome
lembramos ouvir
são emoções que dão vida
à saudade que trago
aquelas que tive contigo
e acabei por perder
há dias que marcam a alma
e a vida da gente
e aquele em que tu me deixaste
não posso esquecer

a chuva molhava-me o rosto
gelado e cansado
as ruas que a cidade tinha
já eu percorrera
ai... o meu choro de moça perdida
gritava à cidade
que o fogo do amor sob a chuva
há instantes morrera
a chuva ouviu e calou
o meu segredo à cidade
e eis que ela bate no vidro
trazendo a saudade"

Jorge Fernando

http://www.youtube.com/watch?v=OpExb2hCYTs&mode=related&search=

19 outubro 2006

Promessas

Eu prometi
Tu prometeste
Ele...

18 outubro 2006

Palavras #2











Avenida de La Vida II - Bertram Bahner



"Há palavras que nos beijam

Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte."

Alexandre O'Neil