
in Autópsia de um Mar de Ruínas - João de Melo
"As espécies que não desenvolveram a escrita valem-se da memória instintiva. O salmão sabe o caminho do lugar onde nasceu sem ter que consultar um parente ou um mapa.(...) Já o Homem pode ser definido como o animal que precisa tomar nota." Luís Fernando Veríssimo

Certo dia reparou que algum do dinheiro tinha desaparecido. Raios partam! Era só o que me faltava: um ladrão. Nessa altura andava na construção da igreja e em conversa com o padre contou-lhe o sucedido:
- Parece-me que trago um ladrão em casa, senhor Prior. O dinheiro anda a minguar. Não sei o que hei-de fazer.
- Tens uma boa forma de descobrir o ladrão. – disse-lhe o padre – Tens alguma ratoeira em casa?
- Ratoeira? Daquelas de apanhar ratos? – perguntou Alberto coçando a cabeça.
- Claro Alberto, então para que servem as ratoeiras? Colocas uma dentro da caixa e verás que daqui a algum tempo descobres o ladrão.
- Senhor Prior apanhei o ladrão. Bem, o ladrão não, a ladroa.
O padre olhou para ele e começou a rir-se.
- Não acredita senhor Prior?! Aquela ladroa da minha irmã… Não tenho o dinheiro de volta, mas também me vinguei. Pois vinguei, que ela agora tem uma mão empanada e anda com o braço ao peito. Claro que não confessou, mas eu sei que foi ela: a ratoeira desapareceu e ela ficou com a mão empanada. Uma ladroa é o que ela é.

...
Os outros estão mortos porque o estão
Só tu morreste tanto que não tens ressurreição
Pois vives tanto em mim como em qualquer lugar
Onde antes te encontrava e te posso encontrar
E ver-te vou como quem voa ao caminhar
Todos eram mortais e tu morreste e
Vives sempre mais."
É-me difícil escrever sobre isto. Ontem tentei e deixei palavras de outros. Hoje depois de reler achei que o melhor a fazer seria apagar: li e não era aquilo que queria dizer. 
Butterfly on Book-Cora Buttenbender
"este livro. passa um dedo pela página, sente o papel
como se sentisses a pele do meu corpo, o meu rosto.
momentos. o que temos para dizer não pode ser dito.
a tua. damos as mãos quando seguras este livro.
eu não sei responder a todas as perguntas do mundo.
o papel. devagar, muito devagar. vamos beijar-nos."
in A Casa, a Escuridão - José Luís Peixoto
"O meu amor
"E mesmo, pensar nesta coisa tão sublime e rudimentar – a fala (...). Porque nós não reflectimos. A fala. A transubstanciação da matéria, das coisas. A quantidade espantosa de músculos, de instrumentos vocais, para dizer esta coisa simples que é por exemplo «cu». A quantidade espantosa de movimentos, de adaptações. Sem falar já da trapalhada dos comandos cerebrais. Ou dos arranjos emotivos que acompanham a operação, com o seu trabalho nervoso que é regulado pela educação que teve e a religião que nos deram, a as amizades e os ódios e as inclinações sanguíneas. Ou do esforço enorme para dar ao fole que faz vibrar as palhetas do som. E depois, falar é tão vagaroso. Dizer por exemplo «está uma tarde pavorosa de calor» leva um tempo imenso a despachar. A gente diz a primeira palavra, que leva já muito tempo, e tem de esperar pela segunda que também, e ainda pela terceira, até que já não haja mais nenhuma. Mas o calor é rápido, sente-se logo. E escrever ainda é mais longo e ler é mais trabalhoso. Há os caracteres que se desenham, e há depois a sua transposição para os sons que querem dizer, e há depois todo um complicado trabalho dos mecanismos de inteligência memoria imaginação – uma fala é tão rudimentar."