16 novembro 2006

Palavras #6


"Perguntas há cujo som contraria as leis naturais da criação, pois ficam para sempre em claro no espírito dos homens."


in
Autópsia de um Mar de Ruínas - João de Melo

10 novembro 2006

Ratoeira


Alberto era um miúdo bem disposto e arisco de quem todos gostavam. Último de uma prole de 7 filhos cedo teve de começar a trabalhar. O pai, que tinha um gosto especial pela pinga, colocou-o a trabalhar com o tio, pedreiro de profissão. Começou como servente de pedreiro e era a alegria e o pesadelo dos seus colegas de trabalho: pela boa disposição e pelas partidas que pregava. A vida em casa era complicada, faltava o pão e por isso ralhava-se sem razão. Apesar de tudo, o trabalho de Alberto corria bem. Além de dar à família o quinhão que lhe competia ainda colocava algum dinheiro de parte. Conseguia sempre umas gorjetas com os donos das obras que adoravam o seu espírito divertido. Para guardar esse tesouro arranjou uma pequena caixa de madeira que guardava religiosamente à beira do sítio onde dormia.

Certo dia reparou que algum do dinheiro tinha desaparecido. Raios partam! Era só o que me faltava: um ladrão. Nessa altura andava na construção da igreja e em conversa com o padre contou-lhe o sucedido:
- Parece-me que trago um ladrão em casa, senhor Prior. O dinheiro anda a minguar. Não sei o que hei-de fazer.
- Tens uma boa forma de descobrir o ladrão. – disse-lhe o padre – Tens alguma ratoeira em casa?
- Ratoeira? Daquelas de apanhar ratos? – perguntou Alberto coçando a cabeça.
- Claro Alberto, então para que servem as ratoeiras? Colocas uma dentro da caixa e verás que daqui a algum tempo descobres o ladrão.
De volta a casa Alberto colocou o plano em prática. Passados dois dias chegou à obra todo entusiasmado:
- Senhor Prior apanhei o ladrão. Bem, o ladrão não, a ladroa.
O padre olhou para ele e começou a rir-se.
- Não acredita senhor Prior?! Aquela ladroa da minha irmã… Não tenho o dinheiro de volta, mas também me vinguei. Pois vinguei, que ela agora tem uma mão empanada e anda com o braço ao peito. Claro que não confessou, mas eu sei que foi ela: a ratoeira desapareceu e ela ficou com a mão empanada. Uma ladroa é o que ela é.

09 novembro 2006

Palavras #5





"Em legítima defesa
Sei hoje que ninguém antes de ti
Morreu profundamente para mim

...

Os outros estão mortos porque o estão
Só tu morreste tanto que não tens ressurreição
Pois vives tanto em mim como em qualquer lugar
Onde antes te encontrava e te posso encontrar
E ver-te vou como quem voa ao caminhar
Todos eram mortais e tu morreste e
Vives sempre mais."

in Volume II - Ruy Belo

07 novembro 2006

"Só o amor faz renascer a vida em nós"

É-me difícil escrever sobre isto. Ontem tentei e deixei palavras de outros. Hoje depois de reler achei que o melhor a fazer seria apagar: li e não era aquilo que queria dizer.
Conheço outros Leigos como a Lina, que neste momento devem estar destroçados, mas que têm a força para continuar a lutar pelas pequenas mudanças que vão fazer a diferença no amanhã. A diferença que a Lina fez.

05 novembro 2006

Palavras #4








Butterfly on Book-Cora Buttenbender


"este livro. passa um dedo pela página, sente o papel
como se sentisses a pele do meu corpo, o meu rosto.

este livro tem palavras. esquece as palavras por
momentos. o que temos para dizer não pode ser dito.

sente o peso deste livro. o peso da minha mão sobre
a tua. damos as mãos quando seguras este livro.

não me perguntes quem sou. não me perguntes nada.
eu não sei responder a todas as perguntas do mundo.

pousa os lábios sobre a página. pousa os lábios sobre
o papel. devagar, muito devagar. vamos beijar-nos."

in A Casa, a Escuridão - José Luís Peixoto

02 novembro 2006

A Aldeia

Toscane IV - Franz Heigl

Ninguém me consegue convencer que uma aldeia não é um ser vivo. Ela nasce algures no tempo, sempre pelas mãos dum homem heróico e extraordinário. Depois vive dia após dia e, mais tarde ou mais cedo, acaba por declinar e morrer.
É uma vida inquietante, assim como a de todos nós, que tem os seus momentos de rotina pontuados aqui e ali com um sabor diferente.
Há sempre aquelas que se destacam: vivem não ao sabor do vento mas contra a maré, possuem peculiaridades que as tornam deliciosas e amargas. Conheço uma assim. Nasceu no meio de serras, lutou pela liberdade, sem medo, em 1958, mas mesmo assim viu-se envolta na monotonia que apanha todos. Contudo, no início de cada novo ano a Aldeia começa a fervilhar. Algo acontece que faz sacudir essa monotonia. Os preparativos iniciam-se: o Carnaval é daí a poucos meses. É preciso falar com a Graça… e com o Fernando também. Não te esqueças, esse ajuda sempre. Todos os braços são poucos para montar o Cortejo. Mas há qualquer coisa mais: movimentações de bastidores, troca de informações… As duas semanas anteriores ao Carnaval são uma azáfama. As filas no posto médico diminuem vertiginosamente: deixa de ser preciso ir apanhar vez às 6 da manhã. A Aldeia trabalha a dobrar e depois sai para a noite para tocar às campainhas, fazer badalos e caqueiradas, fugir pelas ruas e gritar É Carnaval, ninguém leva a mal. Mas há sempre uma noite mais especial, mais aguardada… A noite em que as informações recolhidas tomam corpo de quadras. A noite em que as máscaras caem e nenhum solteiro ou solteira está a salvo da verdade. Noite complicada noutros tempos: quase uma sentença de morte para alguns. Nos dias de hoje é a noite em que a Aldeia se liberta, sai do seu caminho responsável e se comporta mal.
Depois dessa noite mal dormida e do dia de Carnaval a rotina volta a instalar-se. É preciso limpar o lixo da festa. É preciso voltar a acordar às 6 da manhã para conseguir uma consulta. Mas a Aldeia sabe que para o ano há mais, e que são esses momentos de loucura e irresponsabilidade que lhe permitem viver.
Ninguém me consegue convencer que esta Aldeia não é um ser humano.

01 novembro 2006

Porque parou, parou porquê?!



Imagina - Tom Jobim e Chico Buarque, 1983

31 outubro 2006

Foi bonita a festa, pá *

"O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca
Quando me beija a boca
A minha pele inteira fica arrepiada

E me beija com calma e fundo

Até minh'alma se sentir beijada, ai



O meu amor

Tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos

Viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes

Depois brinca comigo

Ri do meu umbigo

E me crava os dentes, ai


(...)"


O meu amor
- Chico Buarque 1978

* primeira frase da segunda versão da música Tanto Mar

30 outubro 2006

Palavras #3

"E mesmo, pensar nesta coisa tão sublime e rudimentar – a fala (...). Porque nós não reflectimos. A fala. A transubstanciação da matéria, das coisas. A quantidade espantosa de músculos, de instrumentos vocais, para dizer esta coisa simples que é por exemplo «cu». A quantidade espantosa de movimentos, de adaptações. Sem falar já da trapalhada dos comandos cerebrais. Ou dos arranjos emotivos que acompanham a operação, com o seu trabalho nervoso que é regulado pela educação que teve e a religião que nos deram, a as amizades e os ódios e as inclinações sanguíneas. Ou do esforço enorme para dar ao fole que faz vibrar as palhetas do som. E depois, falar é tão vagaroso. Dizer por exemplo «está uma tarde pavorosa de calor» leva um tempo imenso a despachar. A gente diz a primeira palavra, que leva já muito tempo, e tem de esperar pela segunda que também, e ainda pela terceira, até que já não haja mais nenhuma. Mas o calor é rápido, sente-se logo. E escrever ainda é mais longo e ler é mais trabalhoso. Há os caracteres que se desenham, e há depois a sua transposição para os sons que querem dizer, e há depois todo um complicado trabalho dos mecanismos de inteligência memoria imaginação – uma fala é tão rudimentar."

in Para Sempre - Vergílio Ferreira