"As espécies que não desenvolveram a escrita valem-se da memória instintiva. O salmão sabe o caminho do lugar onde nasceu sem ter que consultar um parente ou um mapa.(...) Já o Homem pode ser definido como o animal que precisa tomar nota." Luís Fernando Veríssimo
14 dezembro 2006
09 dezembro 2006
Palavras #8
in O Riso de Deus - António Alçada Baptista
04 dezembro 2006
Varrer a casa ou limpar o pó?

A Persistência da Memória - Salvador Dali
A conversa decorria ligeira enquanto bebíamos um chocolate quente. A noite estava muito fria, como é usual em Coimbra nesta época do ano. Quase sem nos apercebermos resvalámos para as memórias de infância. É recorrente quando nos encontramos, estranho seria não falarmos sobre isso. Ficámos eufóricas quando nos apercebemos que nos recordávamos dum dia à tarde em que brincávamos às casinhas.
- E a discussão que tivemos? Lembras-te?
- Claro! O que se faz primeiro quando se limpa a casa: varrer o chão ou limpar o pó? Eu dizia que era limpar o pó, tu varrer o chão. Tinhas razão, mas tivemos de ir chamar a minha mãe para desempatar.
As mesas do lado olhavam para nós como se fossemos loucas. Ríamos que nem perdidas a recordar essa tarde: o tempo solarengo, as flores amarelas no quintal…
28 novembro 2006
Palavras (Inéditas) #7

Hand with globe - M.C.Escher
"Ai!
Se o mundo andasse ao contrário...
Se o mundo girasse ao contrário
E a vida era cheia de experiência.
Ai!
Se o mundo torneasse ao contrário
Seria eternamente jovem,
Recapitulava cada amor,
Voltava atrás no tempo,
Agarrava as melhores oportunidades de ser feliz.
Seria talvez invejoso, mas...
Ai!
Como te amava!
Não cometia mais nenhum erro,
Viveria a minha própria vida,
Criaria meu próprio paraíso
E começava a aprender a viver.
Deixava que a Terra me levasse...
Ai!
Se o mundo voltasse atrás
Eu seria tudo aquilo que hoje não sou.
Escolheria o sitio p’ra nascer,
Talvez em tua casa
Ou em casa de alguém que me amasse.
Escolheria os meus amores para amar
E os meus inimigos para odiar.
Ai!
Se o mundo fosse tanta coisa
Eu talvez...
Seria coisa nenhuma...
Ai!"
Ai! - Rui Tente 26.9.94
26 novembro 2006
Cesariny 1923-2006

Guarda-luz da irmã Henriette
"Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco."
23 novembro 2006
19 novembro 2006
Amadeo *
16 novembro 2006
Palavras #6
13 novembro 2006
10 novembro 2006
Ratoeira

Certo dia reparou que algum do dinheiro tinha desaparecido. Raios partam! Era só o que me faltava: um ladrão. Nessa altura andava na construção da igreja e em conversa com o padre contou-lhe o sucedido:
- Parece-me que trago um ladrão em casa, senhor Prior. O dinheiro anda a minguar. Não sei o que hei-de fazer.
- Tens uma boa forma de descobrir o ladrão. – disse-lhe o padre – Tens alguma ratoeira em casa?
- Ratoeira? Daquelas de apanhar ratos? – perguntou Alberto coçando a cabeça.
- Claro Alberto, então para que servem as ratoeiras? Colocas uma dentro da caixa e verás que daqui a algum tempo descobres o ladrão.
- Senhor Prior apanhei o ladrão. Bem, o ladrão não, a ladroa.
O padre olhou para ele e começou a rir-se.
- Não acredita senhor Prior?! Aquela ladroa da minha irmã… Não tenho o dinheiro de volta, mas também me vinguei. Pois vinguei, que ela agora tem uma mão empanada e anda com o braço ao peito. Claro que não confessou, mas eu sei que foi ela: a ratoeira desapareceu e ela ficou com a mão empanada. Uma ladroa é o que ela é.


