14 dezembro 2006



Erik Truffaz, Murcof and Talvin Singh live at the 2006 Montreux Jazz festival. This is the track RIOS from the album REMEMBRANZA, played as encore.

09 dezembro 2006

Palavras #8

Grand Central Station, New York

(…) uma vez, contei-lhe a história do padre Anchieta: que tinha urgência em chegar a uma aldeia e pediu aos carregadores índios para andarem depressa. Ao terceiro dia, pararam e o padre perguntou-lhes porque é que não andavam, sabendo como ele precisava de chegar à aldeia. Eles responderam: “É que nós temos andado depressa demais e a nossa alma ficou para trás. Temos de ficar aqui à espera que ela chegue e entre outra vez no corpo para podermos continuar.”

in O Riso de Deus - António Alçada Baptista

04 dezembro 2006

Varrer a casa ou limpar o pó?








A Persistência da Memória - Salvador Dali


A conversa decorria ligeira enquanto bebíamos um chocolate quente. A noite estava muito fria, como é usual em Coimbra nesta época do ano. Quase sem nos apercebermos resvalámos para as memórias de infância. É recorrente quando nos encontramos, estranho seria não falarmos sobre isso. Ficámos eufóricas quando nos apercebemos que nos recordávamos dum dia à tarde em que brincávamos às casinhas.

- E a discussão que tivemos? Lembras-te?

- Claro! O que se faz primeiro quando se limpa a casa: varrer o chão ou limpar o pó? Eu dizia que era limpar o pó, tu varrer o chão. Tinhas razão, mas tivemos de ir chamar a minha mãe para desempatar.

As mesas do lado olhavam para nós como se fossemos loucas. Ríamos que nem perdidas a recordar essa tarde: o tempo solarengo, as flores amarelas no quintal…

É um sentimento reconfortante saber que uma mesma memória pode persistir, ao fim de vinte anos, em duas vidas diferentes.

(E nunca mais me esqueci que primeiro se varre a casa e só depois se limpa o pó.)

28 novembro 2006

Palavras (Inéditas) #7

















Hand with globe - M.C.Escher

"Ai!
Se o mundo andasse ao contrário...
Se o mundo girasse ao contrário
Os velhos morriam jovens
E a vida era cheia de experiência.
Ai!
Se o mundo torneasse ao contrário
Seria eternamente jovem,
Recapitulava cada amor,
Voltava atrás no tempo,
Agarrava as melhores oportunidades de ser feliz.
Seria talvez invejoso, mas...
Ai!
Como te amava!
Não cometia mais nenhum erro,
Viveria a minha própria vida,
Criaria meu próprio paraíso
E começava a aprender a viver.
Deixava que a Terra me levasse...
Ai!
Se o mundo voltasse atrás
Eu seria tudo aquilo que hoje não sou.
Escolheria o sitio p’ra nascer,
Talvez em tua casa
Ou em casa de alguém que me amasse.
Escolheria os meus amores para amar
E os meus inimigos para odiar.
Ai!
Se o mundo fosse tanta coisa
Eu talvez...
Seria coisa nenhuma...
Ai!"

Ai! - Rui Tente 26.9.94

26 novembro 2006

Cesariny 1923-2006











Guarda-luz da irmã Henriette


"Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco."

Mário Cesariny de Vasconcelos

23 novembro 2006

Tenho dito



Discurso - Carlos Paredes

19 novembro 2006

Amadeo *

Há descobertas que marcam: um toque que provoca um arrepio, um cheiro que nos leva a tempos felizes, um som que perdura durante o sono, imagens e cores que ficam na retina...


Pintura (Brut 300 TSF) - Amadeo de Souza Cardoso, 1913

* título do livro de Mário Cláudio (2003)

16 novembro 2006

Palavras #6


"Perguntas há cujo som contraria as leis naturais da criação, pois ficam para sempre em claro no espírito dos homens."


in
Autópsia de um Mar de Ruínas - João de Melo

10 novembro 2006

Ratoeira


Alberto era um miúdo bem disposto e arisco de quem todos gostavam. Último de uma prole de 7 filhos cedo teve de começar a trabalhar. O pai, que tinha um gosto especial pela pinga, colocou-o a trabalhar com o tio, pedreiro de profissão. Começou como servente de pedreiro e era a alegria e o pesadelo dos seus colegas de trabalho: pela boa disposição e pelas partidas que pregava. A vida em casa era complicada, faltava o pão e por isso ralhava-se sem razão. Apesar de tudo, o trabalho de Alberto corria bem. Além de dar à família o quinhão que lhe competia ainda colocava algum dinheiro de parte. Conseguia sempre umas gorjetas com os donos das obras que adoravam o seu espírito divertido. Para guardar esse tesouro arranjou uma pequena caixa de madeira que guardava religiosamente à beira do sítio onde dormia.

Certo dia reparou que algum do dinheiro tinha desaparecido. Raios partam! Era só o que me faltava: um ladrão. Nessa altura andava na construção da igreja e em conversa com o padre contou-lhe o sucedido:
- Parece-me que trago um ladrão em casa, senhor Prior. O dinheiro anda a minguar. Não sei o que hei-de fazer.
- Tens uma boa forma de descobrir o ladrão. – disse-lhe o padre – Tens alguma ratoeira em casa?
- Ratoeira? Daquelas de apanhar ratos? – perguntou Alberto coçando a cabeça.
- Claro Alberto, então para que servem as ratoeiras? Colocas uma dentro da caixa e verás que daqui a algum tempo descobres o ladrão.
De volta a casa Alberto colocou o plano em prática. Passados dois dias chegou à obra todo entusiasmado:
- Senhor Prior apanhei o ladrão. Bem, o ladrão não, a ladroa.
O padre olhou para ele e começou a rir-se.
- Não acredita senhor Prior?! Aquela ladroa da minha irmã… Não tenho o dinheiro de volta, mas também me vinguei. Pois vinguei, que ela agora tem uma mão empanada e anda com o braço ao peito. Claro que não confessou, mas eu sei que foi ela: a ratoeira desapareceu e ela ficou com a mão empanada. Uma ladroa é o que ela é.