02 janeiro 2007

Começa hoje o ano *

Liberation - M.C.Escher

"Nada começa: tudo continua.
Onde estamos, que vemos só passar?
O dia muda, lento, no amplo ar;
Múrmura, em sombras, flui a água nua.

Vêm de longe,
Só nosso vê-las teve começar.
Em cadeias do tempo e do lugar,
É abismo o começo e ausência.

Nenhum ano começa. É Eternidade!
Agora, sempre, a mesma eterna Idade,
Precipício de Deus sobre o momento,

Na curva do amplo céu o dia esfria,
A água corre mais múrmura e sombria
E é tudo o mesmo: e verbo o pensamento."

in Poesia 1918-1930 - Fernando Pessoa

* poema do primeiro dia do ano no Poemário da Assírio & Alvim

23 dezembro 2006

Ladainha dos póstumos Natais

"Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio.

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que me hão-de lembrar de modo menos nítido.

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo.

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido.

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro.

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo.

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido.

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito.”

David Mourão-Ferreira

14 dezembro 2006



Erik Truffaz, Murcof and Talvin Singh live at the 2006 Montreux Jazz festival. This is the track RIOS from the album REMEMBRANZA, played as encore.

09 dezembro 2006

Palavras #8

Grand Central Station, New York

(…) uma vez, contei-lhe a história do padre Anchieta: que tinha urgência em chegar a uma aldeia e pediu aos carregadores índios para andarem depressa. Ao terceiro dia, pararam e o padre perguntou-lhes porque é que não andavam, sabendo como ele precisava de chegar à aldeia. Eles responderam: “É que nós temos andado depressa demais e a nossa alma ficou para trás. Temos de ficar aqui à espera que ela chegue e entre outra vez no corpo para podermos continuar.”

in O Riso de Deus - António Alçada Baptista

04 dezembro 2006

Varrer a casa ou limpar o pó?








A Persistência da Memória - Salvador Dali


A conversa decorria ligeira enquanto bebíamos um chocolate quente. A noite estava muito fria, como é usual em Coimbra nesta época do ano. Quase sem nos apercebermos resvalámos para as memórias de infância. É recorrente quando nos encontramos, estranho seria não falarmos sobre isso. Ficámos eufóricas quando nos apercebemos que nos recordávamos dum dia à tarde em que brincávamos às casinhas.

- E a discussão que tivemos? Lembras-te?

- Claro! O que se faz primeiro quando se limpa a casa: varrer o chão ou limpar o pó? Eu dizia que era limpar o pó, tu varrer o chão. Tinhas razão, mas tivemos de ir chamar a minha mãe para desempatar.

As mesas do lado olhavam para nós como se fossemos loucas. Ríamos que nem perdidas a recordar essa tarde: o tempo solarengo, as flores amarelas no quintal…

É um sentimento reconfortante saber que uma mesma memória pode persistir, ao fim de vinte anos, em duas vidas diferentes.

(E nunca mais me esqueci que primeiro se varre a casa e só depois se limpa o pó.)

28 novembro 2006

Palavras (Inéditas) #7

















Hand with globe - M.C.Escher

"Ai!
Se o mundo andasse ao contrário...
Se o mundo girasse ao contrário
Os velhos morriam jovens
E a vida era cheia de experiência.
Ai!
Se o mundo torneasse ao contrário
Seria eternamente jovem,
Recapitulava cada amor,
Voltava atrás no tempo,
Agarrava as melhores oportunidades de ser feliz.
Seria talvez invejoso, mas...
Ai!
Como te amava!
Não cometia mais nenhum erro,
Viveria a minha própria vida,
Criaria meu próprio paraíso
E começava a aprender a viver.
Deixava que a Terra me levasse...
Ai!
Se o mundo voltasse atrás
Eu seria tudo aquilo que hoje não sou.
Escolheria o sitio p’ra nascer,
Talvez em tua casa
Ou em casa de alguém que me amasse.
Escolheria os meus amores para amar
E os meus inimigos para odiar.
Ai!
Se o mundo fosse tanta coisa
Eu talvez...
Seria coisa nenhuma...
Ai!"

Ai! - Rui Tente 26.9.94

26 novembro 2006

Cesariny 1923-2006











Guarda-luz da irmã Henriette


"Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco."

Mário Cesariny de Vasconcelos

23 novembro 2006

Tenho dito



Discurso - Carlos Paredes

19 novembro 2006

Amadeo *

Há descobertas que marcam: um toque que provoca um arrepio, um cheiro que nos leva a tempos felizes, um som que perdura durante o sono, imagens e cores que ficam na retina...


Pintura (Brut 300 TSF) - Amadeo de Souza Cardoso, 1913

* título do livro de Mário Cláudio (2003)

16 novembro 2006

Palavras #6


"Perguntas há cujo som contraria as leis naturais da criação, pois ficam para sempre em claro no espírito dos homens."


in
Autópsia de um Mar de Ruínas - João de Melo