in O Aleph - Biografia de Tadeo Isidoro Cruz (1829-1874) - Jorge Luís Borges
"As espécies que não desenvolveram a escrita valem-se da memória instintiva. O salmão sabe o caminho do lugar onde nasceu sem ter que consultar um parente ou um mapa.(...) Já o Homem pode ser definido como o animal que precisa tomar nota." Luís Fernando Veríssimo
18 janeiro 2007
Palavras #9
in O Aleph - Biografia de Tadeo Isidoro Cruz (1829-1874) - Jorge Luís Borges
11 janeiro 2007
Blues da Favela *
04 janeiro 2007
O meu marido é um apaixonado por caça, mas não a caça a que estamos habituados. O que ele gosta mesmo é de caça grossa, grandes safaris, de preferência em África. Foi uma paixão que sempre me incomodou e que ainda me é difícil compreender. Nunca se consegue um marido perfeito não é verdade?!
Foram raras as viagens em que o acompanhei. Além de nunca ter sentido aquele fascínio que alguns têm por África, e da minha vida profissional ser muito absorvente, só a ideia do animal a cair pelo chão, pelo simples prazer de matar, repugnava-me profundamente.
Os anos foram passando, fomos os dois ficando mais velhos, mas a paixão do meu marido pela caça nunca amainou (ao contrário de outras…). Na sua última viagem resolvi acompanhá-lo. Já tinha percorrido quase todo o mundo e África era um carimbo que faltava no meu passaporte. O destino escolhido foi o Botswana.
Quando chegámos comecei a sentir o calor insuportável, a humidade exagerada. Acho que me arrependi nesse mesmo momento de ter viajado.
O meu marido e os amigos partiram no dia seguinte para a sua grande aventura. Fiquei no hotel (de luxo claro, pois não viajo de outra forma) no centro da capital Gaborone, mas ao fim do primeiro dia já estava entediada. Resolvi sair ao acaso, perder-me pela cidade. Ao andar pela rua entrei por coincidência num hospital. Achei estranho: uma quantidade enorme de crianças estava nesse hospital mas não pareciam doentes. Encontrei uma enfermeira que falava inglês. Muito simpática explicou-me o porquê: todas aquelas crianças tinham o vírus HIV. Mas tanta? Questionei eu. Ela sorriu e perguntou-me se não gostaria de voltar lá no dia seguinte. Poderemos falar com mais calma. Acedi. Porque não voltar? Não tinha assim tanto para fazer. No dia seguinte voltei e consegui perceber.
Depois retornei sempre até ao dia em que o meu marido voltou da sua grande aventura. Vinha excitado e entusiasmado pois tinha conseguido abater um elefante. Estavam todos excitadíssimos e não me deram hipótese de contar a minha aventura.
Na viagem de regresso, no avião, enquanto todos dormiam, não conseguia deixar de pensar que estamos todos a abater um animal de grande porte e ninguém pára para ouvir os seus pedidos de ajuda. Raios, como odeio a caça.
*texto iniciado no dia 1 Dezembro 2006 - Dia Mundial da Luta Contra a Sida
Part I - Disaster in Denial
Part II - Turning the tide
02 janeiro 2007
Começa hoje o ano *
Onde estamos, que vemos só passar?
O dia muda, lento, no amplo ar;
Múrmura, em sombras, flui a água nua.
Vêm de longe,
Só nosso vê-las teve começar.
Em cadeias do tempo e do lugar,
É abismo o começo e ausência.
Nenhum ano começa. É Eternidade!
Agora, sempre, a mesma eterna Idade,
Precipício de Deus sobre o momento,
Na curva do amplo céu o dia esfria,
in Poesia 1918-1930 - Fernando Pessoa
* poema do primeiro dia do ano no Poemário da Assírio & Alvim
23 dezembro 2006
Ladainha dos póstumos Natais
"Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio.
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que me hão-de lembrar de modo menos nítido.
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo.
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido.
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro.
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo.
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido.
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito.”
David Mourão-Ferreira
14 dezembro 2006
Erik Truffaz, Murcof and Talvin Singh live at the 2006 Montreux Jazz festival. This is the track RIOS from the album REMEMBRANZA, played as encore.
09 dezembro 2006
Palavras #8
in O Riso de Deus - António Alçada Baptista
04 dezembro 2006
Varrer a casa ou limpar o pó?

A Persistência da Memória - Salvador Dali
A conversa decorria ligeira enquanto bebíamos um chocolate quente. A noite estava muito fria, como é usual em Coimbra nesta época do ano. Quase sem nos apercebermos resvalámos para as memórias de infância. É recorrente quando nos encontramos, estranho seria não falarmos sobre isso. Ficámos eufóricas quando nos apercebemos que nos recordávamos dum dia à tarde em que brincávamos às casinhas.
- E a discussão que tivemos? Lembras-te?
- Claro! O que se faz primeiro quando se limpa a casa: varrer o chão ou limpar o pó? Eu dizia que era limpar o pó, tu varrer o chão. Tinhas razão, mas tivemos de ir chamar a minha mãe para desempatar.
As mesas do lado olhavam para nós como se fossemos loucas. Ríamos que nem perdidas a recordar essa tarde: o tempo solarengo, as flores amarelas no quintal…
28 novembro 2006
Palavras (Inéditas) #7

Hand with globe - M.C.Escher
"Ai!
Se o mundo andasse ao contrário...
Se o mundo girasse ao contrário
E a vida era cheia de experiência.
Ai!
Se o mundo torneasse ao contrário
Seria eternamente jovem,
Recapitulava cada amor,
Voltava atrás no tempo,
Agarrava as melhores oportunidades de ser feliz.
Seria talvez invejoso, mas...
Ai!
Como te amava!
Não cometia mais nenhum erro,
Viveria a minha própria vida,
Criaria meu próprio paraíso
E começava a aprender a viver.
Deixava que a Terra me levasse...
Ai!
Se o mundo voltasse atrás
Eu seria tudo aquilo que hoje não sou.
Escolheria o sitio p’ra nascer,
Talvez em tua casa
Ou em casa de alguém que me amasse.
Escolheria os meus amores para amar
E os meus inimigos para odiar.
Ai!
Se o mundo fosse tanta coisa
Eu talvez...
Seria coisa nenhuma...
Ai!"
Ai! - Rui Tente 26.9.94
26 novembro 2006
Cesariny 1923-2006

Guarda-luz da irmã Henriette
"Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco."



