18 janeiro 2007

Palavras #9

Montmartre - Van Willigen

“Corrigira o passado; naquele tempo, deve ter-se considerado feliz, embora no fundo o não fosse (esperava-o, secreta, no futuro, uma lúcida noite fundamental: a noite em que por fim viu a sua própria face, a noite em que por fim escutou o seu nome. Bem entendida essa noite esgota a sua história; ou melhor, um instante dessa noite, um acto dessa noite, porque os actos são o nosso símbolo). Qualquer destino, por longo e complexo que seja, consta na realidade de um só momento: o momento em que o homem sabe para sempre quem é.”

in O Aleph -
Biografia de Tadeo Isidoro Cruz (1829-1874) - Jorge Luís Borges

11 janeiro 2007

Blues da Favela *




* foi desta forma que o Seu Jorge designou a sua música após lhe perguntarem se concordava com a classificação de Samba Novo - entrevista na TSF no dia 4 Nov 2005, no mesmo dia em que actuou na Casa da Música no Porto

04 janeiro 2007

Giraffe, Botswana - Jacob Halaska

O meu marido é um apaixonado por caça, mas não a caça a que estamos habituados. O que ele gosta mesmo é de caça grossa, grandes safaris, de preferência em África. Foi uma paixão que sempre me incomodou e que ainda me é difícil compreender. Nunca se consegue um marido perfeito não é verdade?!
Foram raras as viagens em que o acompanhei. Além de nunca ter sentido aquele fascínio que alguns têm por África, e da minha vida profissional ser muito absorvente, só a ideia do animal a cair pelo chão, pelo simples prazer de matar, repugnava-me profundamente.
Os anos foram passando, fomos os dois ficando mais velhos, mas a paixão do meu marido pela caça nunca amainou (ao contrário de outras…). Na sua última viagem resolvi acompanhá-lo. Já tinha percorrido quase todo o mundo e África era um carimbo que faltava no meu passaporte. O destino escolhido foi o Botswana.
Quando chegámos comecei a sentir o calor insuportável, a humidade exagerada. Acho que me arrependi nesse mesmo momento de ter viajado.
O meu marido e os amigos partiram no dia seguinte para a sua grande aventura. Fiquei no hotel (de luxo claro, pois não viajo de outra forma) no centro da capital Gaborone, mas ao fim do primeiro dia já estava entediada. Resolvi sair ao acaso, perder-me pela cidade. Ao andar pela rua entrei por coincidência num hospital. Achei estranho: uma quantidade enorme de crianças estava nesse hospital mas não pareciam doentes. Encontrei uma enfermeira que falava inglês. Muito simpática explicou-me o porquê: todas aquelas crianças tinham o vírus HIV. Mas tanta? Questionei eu. Ela sorriu e perguntou-me se não gostaria de voltar lá no dia seguinte. Poderemos falar com mais calma. Acedi. Porque não voltar? Não tinha assim tanto para fazer. No dia seguinte voltei e consegui perceber.
Depois retornei sempre até ao dia em que o meu marido voltou da sua grande aventura. Vinha excitado e entusiasmado pois tinha conseguido abater um elefante. Estavam todos excitadíssimos e não me deram hipótese de contar a minha aventura.
Na viagem de regresso, no avião, enquanto todos dormiam, não conseguia deixar de pensar que estamos todos a abater um animal de grande porte e ninguém pára para ouvir os seus pedidos de ajuda. Raios, como odeio a caça.

*texto iniciado no dia 1 Dezembro 2006 - Dia Mundial da Luta Contra a Sida

Part I - Disaster in Denial
Part II - Turning the tide

02 janeiro 2007

Começa hoje o ano *

Liberation - M.C.Escher

"Nada começa: tudo continua.
Onde estamos, que vemos só passar?
O dia muda, lento, no amplo ar;
Múrmura, em sombras, flui a água nua.

Vêm de longe,
Só nosso vê-las teve começar.
Em cadeias do tempo e do lugar,
É abismo o começo e ausência.

Nenhum ano começa. É Eternidade!
Agora, sempre, a mesma eterna Idade,
Precipício de Deus sobre o momento,

Na curva do amplo céu o dia esfria,
A água corre mais múrmura e sombria
E é tudo o mesmo: e verbo o pensamento."

in Poesia 1918-1930 - Fernando Pessoa

* poema do primeiro dia do ano no Poemário da Assírio & Alvim

23 dezembro 2006

Ladainha dos póstumos Natais

"Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio.

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que me hão-de lembrar de modo menos nítido.

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo.

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido.

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro.

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo.

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido.

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito.”

David Mourão-Ferreira

14 dezembro 2006



Erik Truffaz, Murcof and Talvin Singh live at the 2006 Montreux Jazz festival. This is the track RIOS from the album REMEMBRANZA, played as encore.

09 dezembro 2006

Palavras #8

Grand Central Station, New York

(…) uma vez, contei-lhe a história do padre Anchieta: que tinha urgência em chegar a uma aldeia e pediu aos carregadores índios para andarem depressa. Ao terceiro dia, pararam e o padre perguntou-lhes porque é que não andavam, sabendo como ele precisava de chegar à aldeia. Eles responderam: “É que nós temos andado depressa demais e a nossa alma ficou para trás. Temos de ficar aqui à espera que ela chegue e entre outra vez no corpo para podermos continuar.”

in O Riso de Deus - António Alçada Baptista

04 dezembro 2006

Varrer a casa ou limpar o pó?








A Persistência da Memória - Salvador Dali


A conversa decorria ligeira enquanto bebíamos um chocolate quente. A noite estava muito fria, como é usual em Coimbra nesta época do ano. Quase sem nos apercebermos resvalámos para as memórias de infância. É recorrente quando nos encontramos, estranho seria não falarmos sobre isso. Ficámos eufóricas quando nos apercebemos que nos recordávamos dum dia à tarde em que brincávamos às casinhas.

- E a discussão que tivemos? Lembras-te?

- Claro! O que se faz primeiro quando se limpa a casa: varrer o chão ou limpar o pó? Eu dizia que era limpar o pó, tu varrer o chão. Tinhas razão, mas tivemos de ir chamar a minha mãe para desempatar.

As mesas do lado olhavam para nós como se fossemos loucas. Ríamos que nem perdidas a recordar essa tarde: o tempo solarengo, as flores amarelas no quintal…

É um sentimento reconfortante saber que uma mesma memória pode persistir, ao fim de vinte anos, em duas vidas diferentes.

(E nunca mais me esqueci que primeiro se varre a casa e só depois se limpa o pó.)

28 novembro 2006

Palavras (Inéditas) #7

















Hand with globe - M.C.Escher

"Ai!
Se o mundo andasse ao contrário...
Se o mundo girasse ao contrário
Os velhos morriam jovens
E a vida era cheia de experiência.
Ai!
Se o mundo torneasse ao contrário
Seria eternamente jovem,
Recapitulava cada amor,
Voltava atrás no tempo,
Agarrava as melhores oportunidades de ser feliz.
Seria talvez invejoso, mas...
Ai!
Como te amava!
Não cometia mais nenhum erro,
Viveria a minha própria vida,
Criaria meu próprio paraíso
E começava a aprender a viver.
Deixava que a Terra me levasse...
Ai!
Se o mundo voltasse atrás
Eu seria tudo aquilo que hoje não sou.
Escolheria o sitio p’ra nascer,
Talvez em tua casa
Ou em casa de alguém que me amasse.
Escolheria os meus amores para amar
E os meus inimigos para odiar.
Ai!
Se o mundo fosse tanta coisa
Eu talvez...
Seria coisa nenhuma...
Ai!"

Ai! - Rui Tente 26.9.94

26 novembro 2006

Cesariny 1923-2006











Guarda-luz da irmã Henriette


"Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco."

Mário Cesariny de Vasconcelos