28 fevereiro 2007

Eterno enternecimento

Amo ler, por isso acho que se pode dizer que amo os que escrevem os livros que leio. Uma consequência natural... Mas há sempre uns que amamos mais que outros, pela altura em que os lemos, pelas emoções que nos causam.
Engraçado encontrar pontos comuns entre os vários livros dum mesmo escritor. Com António Alçada Baptista há uma palavra constante aos livros que dele li: enternecimento. Foi quase um vocábulo novo para mim. Não me recordava de alguma vez ter utilizado esta palavra. Bonita não é?! Agora uso-a amiúde. Tão amiúde que assim que li isto o que logo senti foi um enorme enternecimento.

22 fevereiro 2007

Palavras #11













Porque os outros se mascaram mas tu não

Porque os outros usam a virtude

Para comprar o que não tem perdão.

Porque os outros têm medo mas tu não.


Porque os outros são os túmulos caiados

Onde germina calada a podridão.

Porque os outros se calam mas tu não.


Porque os outros se compram e se vendem

E os seus gestos dão sempre dividendo.

Porque os outros são hábeis mas tu não.


Porque os outros vão à sombra dos abrigos

E tu vais de mãos dadas com os perigos.

Porque os outros calculam mas tu não.


Porque - Sophia de Mello Breyner Andresen (in
"No Tempo Dividido e Mar Novo")

20 fevereiro 2007

Carnival Evening - Henri Rousseau
E mais um ano se cumpriu.

Longe do tempo das caqueiradas, dos rabos e do tira um.
Longe do tempo das caras enfarruscadas e dos pais ofendidos que procuravam, armados com a caçadeira, quem se atrevia a levantar falsos testemunhos sobre as suas meninas.
Longe do tempo dos mascarados que entravam em casa sem pedir licença e da farinha com pimenta que fazia arder os olhos...
Longe, mas perto, na voz dos mais velhos que repetem incansavelmente, todos os anos, as mesmas histórias...
Dizem eles que é Para que não caia no esquecimento!

06 fevereiro 2007

Palavras #10


"E quando encostei o ouvido à boca da minha mãe, era um murmúrio de sons soprados."

in Para Sempre - Vergilio Ferreira



Heart Whispers - Josephine Balakrishnan

22 janeiro 2007



Sovay - Andrew Bird

18 janeiro 2007

Palavras #9

Montmartre - Van Willigen

“Corrigira o passado; naquele tempo, deve ter-se considerado feliz, embora no fundo o não fosse (esperava-o, secreta, no futuro, uma lúcida noite fundamental: a noite em que por fim viu a sua própria face, a noite em que por fim escutou o seu nome. Bem entendida essa noite esgota a sua história; ou melhor, um instante dessa noite, um acto dessa noite, porque os actos são o nosso símbolo). Qualquer destino, por longo e complexo que seja, consta na realidade de um só momento: o momento em que o homem sabe para sempre quem é.”

in O Aleph -
Biografia de Tadeo Isidoro Cruz (1829-1874) - Jorge Luís Borges

11 janeiro 2007

Blues da Favela *




* foi desta forma que o Seu Jorge designou a sua música após lhe perguntarem se concordava com a classificação de Samba Novo - entrevista na TSF no dia 4 Nov 2005, no mesmo dia em que actuou na Casa da Música no Porto

04 janeiro 2007

Giraffe, Botswana - Jacob Halaska

O meu marido é um apaixonado por caça, mas não a caça a que estamos habituados. O que ele gosta mesmo é de caça grossa, grandes safaris, de preferência em África. Foi uma paixão que sempre me incomodou e que ainda me é difícil compreender. Nunca se consegue um marido perfeito não é verdade?!
Foram raras as viagens em que o acompanhei. Além de nunca ter sentido aquele fascínio que alguns têm por África, e da minha vida profissional ser muito absorvente, só a ideia do animal a cair pelo chão, pelo simples prazer de matar, repugnava-me profundamente.
Os anos foram passando, fomos os dois ficando mais velhos, mas a paixão do meu marido pela caça nunca amainou (ao contrário de outras…). Na sua última viagem resolvi acompanhá-lo. Já tinha percorrido quase todo o mundo e África era um carimbo que faltava no meu passaporte. O destino escolhido foi o Botswana.
Quando chegámos comecei a sentir o calor insuportável, a humidade exagerada. Acho que me arrependi nesse mesmo momento de ter viajado.
O meu marido e os amigos partiram no dia seguinte para a sua grande aventura. Fiquei no hotel (de luxo claro, pois não viajo de outra forma) no centro da capital Gaborone, mas ao fim do primeiro dia já estava entediada. Resolvi sair ao acaso, perder-me pela cidade. Ao andar pela rua entrei por coincidência num hospital. Achei estranho: uma quantidade enorme de crianças estava nesse hospital mas não pareciam doentes. Encontrei uma enfermeira que falava inglês. Muito simpática explicou-me o porquê: todas aquelas crianças tinham o vírus HIV. Mas tanta? Questionei eu. Ela sorriu e perguntou-me se não gostaria de voltar lá no dia seguinte. Poderemos falar com mais calma. Acedi. Porque não voltar? Não tinha assim tanto para fazer. No dia seguinte voltei e consegui perceber.
Depois retornei sempre até ao dia em que o meu marido voltou da sua grande aventura. Vinha excitado e entusiasmado pois tinha conseguido abater um elefante. Estavam todos excitadíssimos e não me deram hipótese de contar a minha aventura.
Na viagem de regresso, no avião, enquanto todos dormiam, não conseguia deixar de pensar que estamos todos a abater um animal de grande porte e ninguém pára para ouvir os seus pedidos de ajuda. Raios, como odeio a caça.

*texto iniciado no dia 1 Dezembro 2006 - Dia Mundial da Luta Contra a Sida

Part I - Disaster in Denial
Part II - Turning the tide

02 janeiro 2007

Começa hoje o ano *

Liberation - M.C.Escher

"Nada começa: tudo continua.
Onde estamos, que vemos só passar?
O dia muda, lento, no amplo ar;
Múrmura, em sombras, flui a água nua.

Vêm de longe,
Só nosso vê-las teve começar.
Em cadeias do tempo e do lugar,
É abismo o começo e ausência.

Nenhum ano começa. É Eternidade!
Agora, sempre, a mesma eterna Idade,
Precipício de Deus sobre o momento,

Na curva do amplo céu o dia esfria,
A água corre mais múrmura e sombria
E é tudo o mesmo: e verbo o pensamento."

in Poesia 1918-1930 - Fernando Pessoa

* poema do primeiro dia do ano no Poemário da Assírio & Alvim

23 dezembro 2006

Ladainha dos póstumos Natais

"Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio.

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que me hão-de lembrar de modo menos nítido.

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo.

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido.

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro.

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo.

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido.

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito.”

David Mourão-Ferreira