22 março 2007

Gente que passa

Gente que passa e desvia o olhar. Gente que passa e faz de conta que não existo. Gente que passa e afasta de mim as crianças como se eu lhes pudesse fazer algo. Gente que passa, passa, corre, e diz que não com a cabeça, mas sempre sem olhar. Gente que passa e levanta a mão, e faz aquele trejeito do Aqui está este novamente, não se tem paz em lado nenhum. Gente que passa e continua a passar, como se eu não existisse… Gente que passa e nem é capaz de ver a beleza do que tenho nas mãos. Não estendo as mãos vazias, apenas quero trocar. E esta gente passa e não se apercebe de quão vantajosa pode ser esta troca. Amigo. Dê-me uma dessas. Quanto é? Dois euros? Aqui tem. Guarde o troco. Bonita a capa. Esta revista tem sempre fotos fabulosas. Obrigado. Ah, este parou e não passou apenas. Ainda há desses... Que frenesim de novo: gente que passa, passa e não pára, não olha, não vê tudo isto:


19 março 2007



Hellhound
- Son of Dave
(live at Union Chapel, mas em Coimbra foi tão bom ou melhor)

08 março 2007

Palavras #12

Eyes on the sky - Alfred Gockel


"Acabara por fazer concessões: «Tem um certo quê…» Seria a boca? Não. A boca era grande e de desenho comum. O nariz? Também não. Era comprido e delgado. Eram, então, os olhos. Pretos e serenos, não se distinguiam pela vivacidade, pela mobilidade ou por algum brilho raro. Eram os olhos para os quais ao cabo de algumas reflexões Eugénio só achou um qualificativo:humanos. Envolviam mornamente a pessoa ou objecto em que se fixavam, davam uma ideia de profundidade insondável e principalmente de compreensão. Pareciam enxergar além das coisas com uma penetração que nada tinha de indiscreto ou agressivo."

in Olhai os Lírios do Campo - Erico Verissimo


"Átomo, átomo! Que palavra mais bonita!"

* clicar na imagem para mais pormenores sobre a peça "O efeito dos raios gama nas margaridas do campo"

06 março 2007



Seven Days of Falling - Esbjörn Svensson Trio

"don't run off to look up the word in a dictionary"


Sovay ??

Ainda bem que existem
sítios que esclarecem algumas dúvidas...


28 fevereiro 2007

Eterno enternecimento

Amo ler, por isso acho que se pode dizer que amo os que escrevem os livros que leio. Uma consequência natural... Mas há sempre uns que amamos mais que outros, pela altura em que os lemos, pelas emoções que nos causam.
Engraçado encontrar pontos comuns entre os vários livros dum mesmo escritor. Com António Alçada Baptista há uma palavra constante aos livros que dele li: enternecimento. Foi quase um vocábulo novo para mim. Não me recordava de alguma vez ter utilizado esta palavra. Bonita não é?! Agora uso-a amiúde. Tão amiúde que assim que li isto o que logo senti foi um enorme enternecimento.

22 fevereiro 2007

Palavras #11













Porque os outros se mascaram mas tu não

Porque os outros usam a virtude

Para comprar o que não tem perdão.

Porque os outros têm medo mas tu não.


Porque os outros são os túmulos caiados

Onde germina calada a podridão.

Porque os outros se calam mas tu não.


Porque os outros se compram e se vendem

E os seus gestos dão sempre dividendo.

Porque os outros são hábeis mas tu não.


Porque os outros vão à sombra dos abrigos

E tu vais de mãos dadas com os perigos.

Porque os outros calculam mas tu não.


Porque - Sophia de Mello Breyner Andresen (in
"No Tempo Dividido e Mar Novo")

20 fevereiro 2007

Carnival Evening - Henri Rousseau
E mais um ano se cumpriu.

Longe do tempo das caqueiradas, dos rabos e do tira um.
Longe do tempo das caras enfarruscadas e dos pais ofendidos que procuravam, armados com a caçadeira, quem se atrevia a levantar falsos testemunhos sobre as suas meninas.
Longe do tempo dos mascarados que entravam em casa sem pedir licença e da farinha com pimenta que fazia arder os olhos...
Longe, mas perto, na voz dos mais velhos que repetem incansavelmente, todos os anos, as mesmas histórias...
Dizem eles que é Para que não caia no esquecimento!

06 fevereiro 2007

Palavras #10


"E quando encostei o ouvido à boca da minha mãe, era um murmúrio de sons soprados."

in Para Sempre - Vergilio Ferreira



Heart Whispers - Josephine Balakrishnan