13 março 2008

between the sheets *


Lentamente os dedos aperfeiçoaram a arte de pararem sussurrantes sobre o corpo...

Al Berto

















Paris je t'aime - segmento Quartier des Enfants Rouges



"Os nossos corpos têm a mesma batida, o mesmo ritmo, o mesmo tango por dentro."

in
A Terceira Rosa - Manuel Alegre



Abriu a porta de casa e tudo estava escuro. (Pre)sentiu as mãos dele sobre as suas costas e a boca dele perto da sua orelha Não te vires, sussurou ele. Relaxa. Colocou-lhe uma venda e levou-a. Ela deixou-se guiar, deixou-se ir. De repente a música começou a tocar, aquela música.



Há quantos anos... murmurou ela. Shiuu. E ele começou a tocá-la, a beijá-la, a dançar com ela. Todos os cantos e recantos de ambos se tocaram. E a música continuava, sem fim.

E o ritmo,

o balanço,

as respirações,


as mãos,

as bocas,

os sorrisos,


os olhos (já sem venda...),

os risos,

os suspiros,


os gemidos,

as vidas,

as peles,


os murmúrios,

os suores,


o prazer.




E quando a música terminou, ela encaixou-se nele (da mesma forma – perfeita - como a última peça que preenche o puzzle), ele envolveu-a com os seus braços e soprou-lhe ao ouvido: Ouves?! Os dois a bater como um só.



"Mais do que corpo com corpo entre nós tudo foi sempre alma com alma, centro com centro, encontro, desencontro, fuga, amor e mágoa."

in A Terceira Rosa - Manuel Alegre


* Heaven


10 março 2008

Incapacidade Expressiva #1



Não desejo ao meu maior inimigo a incapacidade expressiva que se apodera de mim diante de certas paisagens do mundo.

Miguel Torga








Norte Alentejano (zona de Castelo de Vide e Marvão)



Lagoa do Fogo - Ilha de S.Miguel - Açores



Artur´s Seat - Edinburgh

03 março 2008

and wondering why hapiness is so hard to find *




* Tonight we fly - The Divine Comedy

27 fevereiro 2008

«Simoso» *





















Com as
palavras na boca - Jorge Palha




afasia
do Gr. aphasîa, «impotência para falar»

perda total ou parcial da função da palavra, quer da função de expressão verbal (forma de apraxia), quer da função da compreensão (forma de agnosia), da linguagem falada (surdez verbal) ou escrita (cegueira verbal).



Nesse período, já o disse, as palavras que me chegavam vinham cegas.

in De Profundis, Valsa Lenta - José Cardoso Pires



Palavras. Se o dia fosse outro seriam outras. Se o estado de espírito fosse outro, outras seriam...





E eu, no meio de tanto riso, descobri (sem espanto, sem assombro, custa a crer) que acabara de me libertar duma doença mais que maldita, duma cegueira ou dum apagamento por onde andara sem norte sem dias e que numa viragem sem aviso pessoas e luz, palavras e matéria, tudo tinha voltado à realidade. Existência palpável, o mundo deixara de ser anónimo.

in De Profundis, Valsa Lenta - José Cardoso Pires


* “Sei, agora, que uma nave espacial o tinha entretanto transportado para outra galáxia (...) onde palavras como óculos, relógio, cama, não tinham préstimo ou sentido, e onde, para designar todos os objectos conhecidos, e os mais que havia ainda por inventar, se aplicava o neologismo extraordinariamente eufónico que V. criara: «simoso».”

excerto da
Carta a um Amigo-Novo (espécie de prefácio de João Lobo Antunes ao livro “De Profundis, Valsa Lenta” de José Cardoso Pires)


[nas palavras estão escondidos possíveis destinatários... agarre quem quiser, inclusive aqueles a quem não se destinou:)]

20 fevereiro 2008

Palavras #26














Jmac


"(…) e deixo-me invadir pelas recordações, as minhas e as dos outros, e digo para comigo que sem elas e sem as ruínas dessas recordações, sem a memória, a vida seria ainda mais angustiante, embora talvez seja ainda mais angustiante darmo-nos conta de que quanto mais a memória cresce, mais cresce a nossa morte. Porque o homem não passa de uma máquina de recordar e de esquecer que caminha em direcção à morte. E não digo isto com tristeza porque também é verdade que a memória, disfarçando-se de vida, converte a morte em algo subtil e ténue."

in O Mal de Montano - Enrique Vila-Matas


17 fevereiro 2008

Pedaços de Correntes*




há quem diga que na vida há coincidências... eu gosto de lhes chamar rimas... as rimas da vida.


memorizem versos. memorizem versos. haverá momentos em que um verso vos dará mais jeito que um livro de cheques.

Maria João Seixas



temo a verdade verdadeira escondida nas curvas das palavras.

Pepetela


a palavra é uma asa, uma viagem...

um dia, encontrei dois garotos sentados no muro da minha casa. Perguntei-lhes o que faziam ali.
- Não estou a fazer nada, respondeu um deles.
Fiz ao outro a mesma pergunta e ele respondeu:
- Eu estou só a ajudar o meu amigo.

...um fazer nada a quatro mãos.

Mia Couto


Ao visitar um amigo, antigo emigrante nos EUA, na sua ilha Graciosa, no meio da conversa ele diz-me:
"Sabe, professor, estive sete anos em França e não sei uma palavra de francês. Depois fui dez anos para os Estados Unidos e também não aprendi uma palavra que fosse de inglês. Não sei porquê professor, mas o português caiu-me bem."

Onésimo Teotónio Almeida






Ao olhar para os títulos das mesas redondas pareceram-me versos de poemas. Não são?!

Carme Riera


Ao Dar a palavra à voz

Sinto que A meu favor tenho a poesia

Ela conspira a meu favor e sussurra-me:

Vai, pega no lápis. E aí começa

A lenta volúpia de escrever.

Escrever é um gesto preverso que nasce do fundo

A dúvida assalta-nos e como descobrir…

Poesia: a bem dita e mal dita (?)

Deixo o lápis e pego nas escritas dos outros, dos maiores.

Abro o livro e voo para outros mundos:

A literatura rasga a realidade e não tenho como a parar.

Leio. Leio e caminho e A rua faz o Livro.

Pequenina, assim sou e assim me sinto.

Incapaz de entrar nesse mundo,

Sou do tamanho do que escrevo:

Pequenina e comum.

E como todos os comuns tenho a minha língua,

A anatómica e a outra, porque

Cada homem é uma língua (?)

ou muitas, se assim o desejar.


* Correntes d'Escritas (9ª Edição que decorreu na Póvoa de Varzim)

14 fevereiro 2008



Mon Français - Erik Truffaz & Ed Harcourt

08 fevereiro 2008

Slow motion

Dizias sempre o mesmo, tinhas medo de perder as tuas memórias, receio que elas se escapassem por entre os teus dedos, como a areia da praia.
Durante anos tentaste encontrar uma forma de conservar tudo: as boas, as más, os sítios, as pessoas e, principalmente, os pormenores a que ninguém ligava. Foste usando diversos métodos, cientificamente testados (porque levavas essa coisa da ciência muito a sério). A salmoura, o fumeiro… quando surgiu a congelação, eureka, achaste que tinhas o problema resolvido. Compraste o topo de gama, cinco estrelas, empacotaste e etiquetaste tudo, por ano, por tipo de memória.
Foste acumulando tudo ao longo da tua vida: as nuvens que os teus olhos viram, a maresia que o teu nariz cheirou, a chuva que a tua pele sentiu, o riso que os teus ouvidos ouviram, a pele que a tua boca saboreou.
Hoje chegaste à minha beira com uma lágrima ao canto do olho (alegria ou tristeza?). Tinhas começado a descongelar memórias e todas eram um filme a preto e branco, em movimento lento.


04 fevereiro 2008

03 fevereiro 2008

publicidade na última edição da revista Egoísta