27 março 2008

Palavras #27



















...atalanta... - Bruno Abreu



As minhas depressões talvez sejam as minhas metamorfoses: é a maneira que eu tenho de passar de lagarta a crisálida. São etapas de libertação.



um dia vão descobrir que viver é um treino e uma aprendizagem… É um exercício de meter no possível os nossos sonhos, os nossos desejos e as nossas ambições mas sem abdicar deles.(…) E quando a gente faz essa descoberta vai ainda mais longe: faz por tornar os nossos sonhos possíveis. E o que é possível, sempre, é o afecto que damos aos outros…”


in O Riso de Deus - António Alçada Baptista


26 março 2008

um dia...


adamastor - duarte almeida

O mostrengo que está no fundo do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?
E o homem do leme disse, tremendo:
El-Rei D. João Segundo!

De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?
E o homem do leme tremeu, e disse:
El-Rei D. João Segundo

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!

O Monstrengo - Fernando Pessoa






24 março 2008

Just in time*

I feel like if someone were to touch me, I'd dissolve into molecules.

(...)

So, I want to try something.

What?

I want to see if you stay together or if you dissolve into molecules.




How'm I doing?

Still here.

Good, I like being here.






*Just in time - Nina Simone

Conversas Imaginárias #6

























"não suporto que nada haja mudado
que nem sequer o mais elementar dos rituais pelo menos marcasse em tua vida o antes e o depois"

Ruy Belo



- É mesmo verdade.
- O quê?
- O que dizem do tempo...
- E o que dizem?
- Que cura tudo.
- Não pareces muito satisfeita...
- Pois... sabes, é que não queria ser curada, apenas aliviada. Não quero esquecer, mas esse tempo torna tudo tão desvanecido, tão ténue. Ainda bem que vais aparecendo aqui e acolá, sob diversas formas. É consolador continuares a existir para além de... mas sabe a pouco, a muito pouco...


13 março 2008

between the sheets *


Lentamente os dedos aperfeiçoaram a arte de pararem sussurrantes sobre o corpo...

Al Berto

















Paris je t'aime - segmento Quartier des Enfants Rouges



"Os nossos corpos têm a mesma batida, o mesmo ritmo, o mesmo tango por dentro."

in
A Terceira Rosa - Manuel Alegre



Abriu a porta de casa e tudo estava escuro. (Pre)sentiu as mãos dele sobre as suas costas e a boca dele perto da sua orelha Não te vires, sussurou ele. Relaxa. Colocou-lhe uma venda e levou-a. Ela deixou-se guiar, deixou-se ir. De repente a música começou a tocar, aquela música.



Há quantos anos... murmurou ela. Shiuu. E ele começou a tocá-la, a beijá-la, a dançar com ela. Todos os cantos e recantos de ambos se tocaram. E a música continuava, sem fim.

E o ritmo,

o balanço,

as respirações,


as mãos,

as bocas,

os sorrisos,


os olhos (já sem venda...),

os risos,

os suspiros,


os gemidos,

as vidas,

as peles,


os murmúrios,

os suores,


o prazer.




E quando a música terminou, ela encaixou-se nele (da mesma forma – perfeita - como a última peça que preenche o puzzle), ele envolveu-a com os seus braços e soprou-lhe ao ouvido: Ouves?! Os dois a bater como um só.



"Mais do que corpo com corpo entre nós tudo foi sempre alma com alma, centro com centro, encontro, desencontro, fuga, amor e mágoa."

in A Terceira Rosa - Manuel Alegre


* Heaven


10 março 2008

Incapacidade Expressiva #1



Não desejo ao meu maior inimigo a incapacidade expressiva que se apodera de mim diante de certas paisagens do mundo.

Miguel Torga








Norte Alentejano (zona de Castelo de Vide e Marvão)



Lagoa do Fogo - Ilha de S.Miguel - Açores



Artur´s Seat - Edinburgh

03 março 2008

and wondering why hapiness is so hard to find *




* Tonight we fly - The Divine Comedy

27 fevereiro 2008

«Simoso» *





















Com as
palavras na boca - Jorge Palha




afasia
do Gr. aphasîa, «impotência para falar»

perda total ou parcial da função da palavra, quer da função de expressão verbal (forma de apraxia), quer da função da compreensão (forma de agnosia), da linguagem falada (surdez verbal) ou escrita (cegueira verbal).



Nesse período, já o disse, as palavras que me chegavam vinham cegas.

in De Profundis, Valsa Lenta - José Cardoso Pires



Palavras. Se o dia fosse outro seriam outras. Se o estado de espírito fosse outro, outras seriam...





E eu, no meio de tanto riso, descobri (sem espanto, sem assombro, custa a crer) que acabara de me libertar duma doença mais que maldita, duma cegueira ou dum apagamento por onde andara sem norte sem dias e que numa viragem sem aviso pessoas e luz, palavras e matéria, tudo tinha voltado à realidade. Existência palpável, o mundo deixara de ser anónimo.

in De Profundis, Valsa Lenta - José Cardoso Pires


* “Sei, agora, que uma nave espacial o tinha entretanto transportado para outra galáxia (...) onde palavras como óculos, relógio, cama, não tinham préstimo ou sentido, e onde, para designar todos os objectos conhecidos, e os mais que havia ainda por inventar, se aplicava o neologismo extraordinariamente eufónico que V. criara: «simoso».”

excerto da
Carta a um Amigo-Novo (espécie de prefácio de João Lobo Antunes ao livro “De Profundis, Valsa Lenta” de José Cardoso Pires)


[nas palavras estão escondidos possíveis destinatários... agarre quem quiser, inclusive aqueles a quem não se destinou:)]

20 fevereiro 2008

Palavras #26














Jmac


"(…) e deixo-me invadir pelas recordações, as minhas e as dos outros, e digo para comigo que sem elas e sem as ruínas dessas recordações, sem a memória, a vida seria ainda mais angustiante, embora talvez seja ainda mais angustiante darmo-nos conta de que quanto mais a memória cresce, mais cresce a nossa morte. Porque o homem não passa de uma máquina de recordar e de esquecer que caminha em direcção à morte. E não digo isto com tristeza porque também é verdade que a memória, disfarçando-se de vida, converte a morte em algo subtil e ténue."

in O Mal de Montano - Enrique Vila-Matas