17 abril 2008

...de 1969


Primeiro dia de aulas na universidade de Coimbra. Departamento de matemática. Aula de Análise Matemática I. 8H da manhã.



- Onde vai ser a aula?
- Deixa ver o horário... sala 17A
- Ah! Na sala 17 de Abril.
- ?? Porquê 17 de Abril?
- 17 de Abril de 1969 não te diz nada?
- Uhm... não.
- Também não te conto agora. No final da aula. Anda, estamos atrasados.



Ao entrar na sala o entorpecimento tomou conta do seu corpo. Conseguiu sentar-se, mas tinha a sensação de estar a ser transportado para outro mundo, outro tempo... Uma voz, dentro da sua cabeça, repetia as palavras:


15 abril 2008

Incapacidade Expressiva #2

Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o coração, depois, não hesite.

Miguel Torga





S. Miguel - Açores





Heidelberg - Alemanha







Barragem Vilarinho das Furnas - Gerês

14 abril 2008

Springtime is coming again *


flowers lift theirs heads to the sun



, _ Luis Zilhão

Luis Zilhão



and I wanna bloom with them






* Bloom - Lou Rhodes

12 abril 2008

"Olá disseste. E a terra começou a tremer."



(Cheira intensamente a maçãs na antiga sala de bilhar. Estão espalhadas por todo o lado: no chão, no pano verde, dentro dos cestos e canastras. Ia dizer: dentro de ti.





Porque é também o teu cheiro: não só a madressilva e às ervas das areias, mas a maçã camoesa,
reineta,
bravo de esmolfe.
Aqui brincámos, quando pequenos, aos cavalinhos e às casinhas. Mais tarde a outros jogos. Alguns, por certo, chamar-lhe-iam eróticos. Eu digo castos. Jogos castos, ainda que perigosos.
Despe-te, pedes, um certo fim de tarde, era Julho, tenho a certeza que era Julho pela tonalidade de luz e sombra que a essa hora se coalhava num dos cantos da sala de bilhar. Não há pudor entre nós. Obedeço. Ficas a olhar para mim.

(...)
- Quero ir contigo
- Diz outra vez
- Quero ir contigo
- Não, a palavra, diz só a palavra que não se diz, diz a palavra de que eu gosto
Mas eu não digo.
(...)
-Quero ir contigo, insisto.

Mas tu já estás a divagar. Começas a dançar, fazendo gestos largos, como se agitasses invisíveis véus.

Assim te despes, devagar, dançando sempre. É a primeira vez que te vejo nua, completamente nua, posso mesmo dizer que estás nua por fora e por dentro, não é só o teu corpo que me mostras, é algo mais, alguns diriam alma, eu não sei como dizer, sei que estás dentro e és tu, a tua nudez é uma nudez espiritual.

-Dá-me um beijo na boca, dizes.

Eu beijo-te. Sabes a maçã, a Julho, talvez a Deus. Por mais estranho que pareça, apetece-me rezar.

-Agora beija-me aqui – e apontas o teu sexo.

Eu assim faço.

Sem pudor, sem pecado, sem remorso.

Estamos nus na sala de bilhar, é Julho, posso jurar que é Julho, dizemos palavras proibidas que pelo modo como as dizemos são santas e sagradas, os nossos gestos são castos, talvez perigosos, mas castos, ou, pelo menos, inocentes. Estamos nus, é Julho. E o espírito de Deus, se Deus existe, paira de certeza sobre nós.)


in A Terceira Rosa - Manuel Alegre
(fotos de cima para baixo: Tentação - Amanda Com; [Not about]Love - Graça Loureiro)

08 abril 2008

um, dois, três, e...



... aconteceu magia...


...notas a atravessarem a pele e a deixarem um rasto de arrepios

...palavras de veludo a acariciarem os ouvidos


06 abril 2008




Quando eu morrer voltarei para buscar
os instantes que não vivi junto do mar.










Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.

A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.








Terror de te amar num sítio tão frágil

como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.







letras... Sophia de Mello Breyner-Andresen

músicas... Poema azul (Sérgio Ricardo)e As praias desertas(António Carlos Jobim)
....interpretadas por Maria Bethânia




03 abril 2008

I wanted to see this for myself *










* Fall

[next time, de certeza...]


02 abril 2008


Lendo isto, recordei uma pequena história de Alçada Baptista:


A vírgula que faltava

O José Cutileiro fazia bons versos. Se calhar ainda faz. Ele tem mesmo um livro publicado na Guimarães Editores onde se lê poesia de qualidade. Às vezes lia-nos os poemas. Uma vez, ia-nos ler um soneto, a mim e ao Alexandre O'Neill e começou assim, cheio de solenidade:
«De ti me sirvo amor como de tudo...»
Então o Alexandre disse: - Ó Zé, falta aí uma vírgula: «De ti me sirvo amor, vírgula», e depois, abriu os braços, e num ar conformado terminou: «como de tudo...»

Mas as interrupções de poemas não ficam por aqui. Uma vez ele estava a descer a Avenida da Liberdade com o Alexandre Pinheiro Torres. Naquele tempo a gente quando tinha fome dizia «estou com uma traça!». Pois o Pinheiro Torres estava a dizer-lhe um poema que a certa altura dizia:
«A rota, a traça...»
O Alexandre interrompeu-o:
- Ó Pinheiro Torres, isso de arrotar a própria traça não será fome a mais?!

in A Cor dos dias - António Alçada Baptista


(foto: Vírgula - Paulo Moura)

27 março 2008

Palavras #27



















...atalanta... - Bruno Abreu



As minhas depressões talvez sejam as minhas metamorfoses: é a maneira que eu tenho de passar de lagarta a crisálida. São etapas de libertação.



um dia vão descobrir que viver é um treino e uma aprendizagem… É um exercício de meter no possível os nossos sonhos, os nossos desejos e as nossas ambições mas sem abdicar deles.(…) E quando a gente faz essa descoberta vai ainda mais longe: faz por tornar os nossos sonhos possíveis. E o que é possível, sempre, é o afecto que damos aos outros…”


in O Riso de Deus - António Alçada Baptista