01 setembro 2009

pois vives tanto em mim como em qualquer lugar *

"A vida, como sabes, tem o tempo da areia que se escapa por entre os dedos.
Areia rápida e branca.
Esvoaçante."

in Anjo Mundo - Al Berto



O tempo para mim não me diz nada. Todo este tempo do mundo, pouco ou nada me ensinou a viver. Temos que acreditar que realmente somos capazes, temos que acreditar que somos heróis mas já me trouxe mais desgsoto que o próprio sabor da vitória, da conquista do que hoje sou. Não sei, perdi esta necessidade de escrever, de amar, perdi esta necessidade de liberdade, para não me sentir acorrentado ao sabor de algo que já não vem. De algo que já não desperta esta minha penosa intenção de viver. Queria acordar num sonho onde um rosto é igualdade, queria viver a emoção de me tornar imortal.
Não!
Não quero ser um mero esquecimento aquando da minha morte, onde as cinzas são lançadas ao esquecimento daqueles que não acreditam na vitória da poesia.
Hoje não passo de uma mísera dúvida, na procura fugaz e rápida de soluções entre o arredondamento das palavras. Quero ter esse Deus, para acreditar que afinal... nem tudo é tão breve e instantâneo como a nossa vida, como simples mortais. Quero ser parte integrante da dúvida e nunca, NUNCA a dúvida ser um parasita alojado no meu íntimo ser. Acredito que a força das palavras e o instinto revolucionário da música chega para eu vencer.
Mas quem?
QUEM?
Não sei!
Não sei, já perdi os meus ideais, já perdi os meus companheiros de luta, perdi esta vontade de navegar num mar de ideias ultrapassadas no recanto da solidão.
Sou o último guerreiro deste universo que ainda esgrima com as palavras. Sou o único que da palavra luta faço o meu escudo, sou o único guerreiro que ainda acredita que posso dar mundos ao mundo... e tudo pela força da poesia.
Sou um estado inconstante à procura da felicidade, quando o medo se apodera de mim, torno-me liquidamente naufragado. Quando a raiva me alberga a alma, torno-me solidamente implacável e quando esse teu amor trespassa o meu coração, torno-me gasosamente inexistente.
Tenho medo!
Tenho medo de sofrer, tenho medo de nunca alcançar aquilo que sonhei, tenho medo do que aconteça à minha alma depois te todos os meus sonhos vencerem, tenho medo...
Tenho medo de mim próprio, de ser como sou, tenho medo desta enorme dúvida que afinal sou EU.

Rui Tente - 15.06.1996



"É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro"

Ruy Belo


* in Em legítima defesa - Ruy Belo

27 agosto 2009

Palavras #40

Photobucket

scarabuss

"- Did you know. . . I hardly remembered you.
- Hardly remembered?
- I mean. . . I mean it's always the same. Each time I see you. You happen to me allover again."

(the age of innocence)


"Viajava durante umas semanas, um mês, e um dia regressava, e quando nos encontrávamos no átrio havia qualquer coisa no seu rosto, como se tivesse esquecido o meu aspecto e ficasse encantado de novo, uma mulher alta e magra que podia ter sido pintada por El Greco, uma madona ou um anjo, e por alguns instantes olhava-me como se ainda me tivesse amor.

(...)

- Tinha esquecido como eras bonita. - dizia-lhe o mesmo em Madrid, com a mesma surpresa, quando se encontravam de manhã cedo, quando se separavam por algumas horas."

in O Verão selvagem dos teus olhos - Ana Teresa Pereira

16 agosto 2009

03 agosto 2009

Incapacidade Expressiva #12

"Serra!
E qualquer coisa dentro de mim se acalma...
Qualquer coisa profunda e dolorida,
traída,
feita de terra
e alma."

Miguel Torga, in Diário II




Póvoa do Lanhoso
Póvoa de Lanhoso (na zona)



Cascatas do "Tahiti" - Gerês
Cascatas do "Tahiti" - Parque Nacional da Peneda Gerês


Brufe _PNPG
a caminho de Brufe - Parque Nacional da Peneda Gerês


22 julho 2009

Do que constrói as nossas madrugadas #3

Trio of galaxies miz it up_NASA
Nasa


As madrugadas estão quentes e a roupa pesa em cima do corpo que descansa. Num ápice o lençol desaparece. Sentes um arrepio, apesar do calor da noite. Outro arrepio... a mão dele começa a percorrer-te. Os pés, as pernas,... Despe-te e tu deixas despir-te. Começa a ligar os pontos da tua pele, esses sinais malditos. Desenha uma série de linhas imaginárias e começa a nomear cada uma das constelações que criou no teu corpo. No fim, depois de te percorrer na totalidade, beija-te longamente e sussurra-te ao ouvido...


Queres ir comigo às estrelas?
Vamos fazer parte das constelações...


15 julho 2009

Palavras #39

Fear Of Falling by ~wries
wries


"Hoje, agora, barba feita e inútil, apenas quero dizer que, em vez de de tudo isto, gostava de ter a coragem de ser como aquele escritor americano que há cinco/seis anos conheci em Haia, na Holanda. Desde a hora em que fomos apresentados, ele sentiu uma ternura instantânea e evidente por mim, uma ternura paternal, que aceitei. Era de noite, caminhávamos pelas ruas desertas de Haia, chovia um véu que nos cobria o rosto. Ele passava dos sessenta anos, eu ainda não tinha trinta, falava-me dos filhos que eram homens e lhe telefonavam duas ou três vezes por ano, falava-me da solidão. Disse que estava sozinho há quase quinze anos. Quando lhe perguntei o motivo pelo qual não procurava companhia, respondeu-me que não queria fazer mal a mais ninguém. Essas palavras ficaram-me, ouço-as muitas vezes. Nessa noite, enquanto passeávamos, o escritor americano tropeçou e caiu com muita violência no chão, as mãos escorregaram-lhe quando ia amparar a queda. Tentei ajudá-lo a levantar-se, recusou. Perguntei-lhe se devia chamar uma ambulância, recusou. Disse-me que só precisava de ficar deitado um instante. E assim foi. Ficou deitado no passeio, de barriga para cima, de olhos fechados, com a chuva a cobri-lo devagar. Eu baixei-me e fiquei ao seu lado. Durante esse instante, no silêncio, dentro da dor, houve paz."

José Luís Peixoto - excerto da crónica Não tenho medo de nada, só tenho medo de tudo inserida na Visão nº 853