26 agosto 2013

Carta a Alice #3

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let-it-di


Morreste-nos antes de viver. Antes dos teus pulmões sentirem o ar que respiramos.

Morreste-nos sem que tenhamos sentido o calor da tua pele. Sem que te tenhamos visto sorrir, chorar e gritar desalmadamente.

Morreste-nos para viveres nas lembranças nubladas dos nossos corações.


14 agosto 2013

Do que constrói as nossas madrugadas (dias) #11



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- Gostava de acreditar...

- ...

- Que existirá uma eternidade contigo.


- Claro que existe: 


a eternidade de todos os nossos momentos, presentes e passados

a eternidade dos toques nossos, no escuro e no silêncio da noite

a eternidade dos silêncios nossos cheios de palavras

a eternidade das palavras nossas cheias de sentimento

a eternidade da dor nossa preenchida de felicidade



a eternidade da ternura do nosso amor




(os dicionários teimam na inexistência da palavra, por isso remeto para aqui...)


07 agosto 2013

Carta a Alice #2 (depois de nascer)

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alice - wredna



Eras bonita.
 Sim, tu. 
 Minha filha.

Que nunca serás na plenitude, pois não és minha filha só por te trazer ao mundo. Serias com tudo o restante que te ensinasse, te ralhasse e te amasse. Serias com o tempo que ficaria a olhar para ti, a conhecer-te, a cheirar-te. Serias...

Uma dor, salpicada com felicidade, ter-te, sentir-te nos meus braços, no meu peito, para logo depois te levarem de nós. Mas ainda sorrimos para ti, enquanto lágrimas corriam pelas nossas faces. Sorrimos por, finalmente, te conhecer.

No fim, na contagem dos tempos, foram mais os dias em que te senti e te soube viva que os dias em que te deixei de sentir. E foi por isto, por todo esse tempo [essas 40 semanas, esses 280 dias, essas 6720 horas, esses 403200 minutos...] que a felicidade nos contagiou quando te olhámos. Que a esperança e a serenidade nos invadiram nesse momento. 
E é por isso que não é só a dor e a tristeza que nos invadem quando em ti pensamos ou te recordamos. 

Porque foste/és um (re)começo. 

escrito a 7 de Julho 2013

06 agosto 2013

Do que constrói as nossas madrugadas (dias) #10


"(...) estende o corpo, adormece debaixo da sombra do meu. Sorris, quando te segredo: que a sombra te seja leve."

Al Berto



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"Apaga as estrelas, vem dormir comigo no esplendor da noite do mundo que nos foge." 

Al Berto

04 agosto 2013

Palavras #50

"Às vezes encontramo-nos com a cabeça nas mãos. Tudo o que poderia ter corrido bem correu mal. O mundo, que era igual à vida, afasta-se de repente. Distancia-se e continua a existir, como se nada tivesse a ver ou a haver connosco, como se fizesse questão de mostrar a independência dele, mundo, que não existe só porque nos damos conta dele."

in Como é linda a puta da vida - Miguel Esteves Cardoso



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so close - gabriel thearchangel

02 agosto 2013



The lost child - David J. Roch

31 julho 2013

"Mas não há lágrimas na verdadeira tristeza, assim como não há riso na alegria. Falo duma tristeza e duma alegria fundas, como as minas escavadas, ano após ano, para procurar um veio de ouro.

(...)


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(...)

- E se nos calássemos enquanto a memória se esvazia. Está tudo por acontecer. Mesmo o sono, se vier, terá um peso de lume, um sabor a terras mortas e areias salgadas. Não sei... está tudo ainda por acontecer."



Al Berto - in Quarto de Pensão - Anjo Mudo 



25 julho 2013

Carta a Alice #1 (antes de nascer)

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alice - wredna


Devia ter tempo, disposição e vontade para te escrever sobre os pequenos episódios do dia a dia: como a ansiedade em saber se o teu coração batia na ecografia das 12 semanas, ou o sorriso pateta que me invadiu a cara, quando, enquanto trabalhava, te senti pela primeira vez. Podia ainda falar-te (ou escrever-te:) ) acerca da cara do teu pai quando sentiu o teu mexer através da minha barriga, que começava a crescer nessa altura. Ou ainda melhor, a sua cara de pânico quando se deparou com uma barriga deformada, onde conseguiu perceber algumas das tuas formas.

Podia e queria escrever-te acerca disto tudo, mas nunca me senti tão cansada para tal e tão desinspirada como agora. Estranho?! Não sei... Dir-me-ás tu quando daqui a muitos anos fores mãe (se optares por isso...). Não sei se é o medo a apoderar-se de mim (sim tenho medo: de algo não estar bem contigo, enquanto ai estás dentro, longe da minha vista; de não conseguir dar conta do recado contigo cá fora; de me deixar apoderar pelos medos e receios) ou se é simplesmente cansaço. Puxas muito por mim... E, percebo, cada vez melhor todos os dias, que não me posso dar ao luxo de dizer não quando me apetece. Já se foram esses tempos, e não leias isto como uma queixa, apenas um desabafo, que perceberás nesse futuro.


É uma nova vida que começa a tomar forma e não é só a tua.

escrito a 4 de Abril de 2013

23 julho 2013

Palavras #49

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Deus é impotente e fraco no mundo, e somente assim está connosco e nos ajuda.
Dietrich Bonhoeffer



"Quando Deus vacila em mim
sem adornos, ataduras, sem outro pretexto
Quando o sinto a ponto de perder-se
na folhagem a meu lado
compreendo o grande mistério
uma lei face à qual as palavras
não servem

Deus abraça o meu vazio profundamente grato
Abraça a imundície de todos os seus filhos
e continuamente declara-os bem-aventurados

Pois Deus sendo casto deixa-se consumir
com a paixão insultuosa
dos devassos"


Quando Deus vacila em mim - José Tolentino Mendonça in Estação Central