09 setembro 2013

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Um dia li num livro: «Viajar cura a melancolia».

(...)

Os anos passaram - como se apagam as estrelas cadentes — e, ainda hoje, não sei se viajar cura a melancolia. No entanto, persiste em mim aquela estranha impressão de que lera uma predestinação.

(...)


Viajar, se não cura a melancolia, pelo menos, purifica. Afasta o espírito do que é supérfluo e inútil; e o corpo reencontra a harmonia perdida - entre o homem e a terra.



Al Berto

02 setembro 2013

Carta a Alice #4

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~ nile-can-too


Foi  uma noite boa. Serena. Tranquila.  

Estar naquela varanda, onde fui feliz.  Onde li muito (imenso) sentada naquele chão, quente das tardes de Verão infernais. Onde fiz corridas com patos. Onde respirei o ar fresco (morno) das noites de Verão na minha infância. Cresci naquela varanda: li os livros da Anita, os Cinco, os Maias do Eça, a Aparição do Vergílio, e quantos mais... Aqueles Verões que pareciam intermináveis, as tardes quentes em que mal se respirava. O tempo que dava para tudo e ainda sobrava. O tempo que agora nos foge entre os dedos das mãos.  

Tenho saudades de crescer ali, naquelas noites frescas, naqueles degraus onde tanta emoção passou em mim . Onde chorei amores de adolescência, onde escrevi cartas de amor e desabafos num diário já destruído.


Tudo isso voltou com o fresco daquela noite, com o estar lá rodeada dos que amo. Tudo isso serena, tranquiliza, abre o coração. Mas as lágrimas... essas putas que teimam em aparecer  quando tudo parece melhor.  Senti-te a falta naquela varanda. Naquele silêncio da noite cheio de sons típicos da aldeia, naquele céu estrelado único (nunca encontrei outro igual...), no cheiro da noite de verão, naquele passado que queria para ti.  Senti-te a falta.  E os olhos inundaram-se de lágrimas (essas putas...), que caíram  sem pedir licença.

29 agosto 2013

Palavras #51



"Continuando: somos muitos ao mesmo tempo, somos aqueles que sonhamos, mas sobretudo aquilo que tememos e que desejamos."

Manuel António Pina - [aqui]



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26 agosto 2013

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"Há um tipo de choro bom e há outro ruim. O ruim é aquele em que as lágrimas correm sem parar e, no entanto, não dão alívio. Só esgotam e exaurem. Uma amiga perguntou-me, então, se não seria esse choro como o de uma criança com a angústia da fome. Era. Quando se está perto desse tipo de choro, é melhor procurar conter-se: não vai adiantar. É melhor tentar fazer-se de forte, e enfrentar. É difícil, mas ainda menos do que ir-se tornando exangue a ponto de empalidecer.
Mas nem sempre é necessário tornar-se forte. Temos que respeitar a nossa fraqueza. Então, são lágrimas suaves, de uma tristeza legítima à qual temos direito. Elas correm devagar e quando passam pelos lábios sente-se aquele gosto salgado, límpido, produto de nossa dor mais profunda."

Clarice Lispector

Carta a Alice #3

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let-it-di


Morreste-nos antes de viver. Antes dos teus pulmões sentirem o ar que respiramos.

Morreste-nos sem que tenhamos sentido o calor da tua pele. Sem que te tenhamos visto sorrir, chorar e gritar desalmadamente.

Morreste-nos para viveres nas lembranças nubladas dos nossos corações.


14 agosto 2013

Do que constrói as nossas madrugadas (dias) #11



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- Gostava de acreditar...

- ...

- Que existirá uma eternidade contigo.


- Claro que existe: 


a eternidade de todos os nossos momentos, presentes e passados

a eternidade dos toques nossos, no escuro e no silêncio da noite

a eternidade dos silêncios nossos cheios de palavras

a eternidade das palavras nossas cheias de sentimento

a eternidade da dor nossa preenchida de felicidade



a eternidade da ternura do nosso amor




(os dicionários teimam na inexistência da palavra, por isso remeto para aqui...)


07 agosto 2013

Carta a Alice #2 (depois de nascer)

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alice - wredna



Eras bonita.
 Sim, tu. 
 Minha filha.

Que nunca serás na plenitude, pois não és minha filha só por te trazer ao mundo. Serias com tudo o restante que te ensinasse, te ralhasse e te amasse. Serias com o tempo que ficaria a olhar para ti, a conhecer-te, a cheirar-te. Serias...

Uma dor, salpicada com felicidade, ter-te, sentir-te nos meus braços, no meu peito, para logo depois te levarem de nós. Mas ainda sorrimos para ti, enquanto lágrimas corriam pelas nossas faces. Sorrimos por, finalmente, te conhecer.

No fim, na contagem dos tempos, foram mais os dias em que te senti e te soube viva que os dias em que te deixei de sentir. E foi por isto, por todo esse tempo [essas 40 semanas, esses 280 dias, essas 6720 horas, esses 403200 minutos...] que a felicidade nos contagiou quando te olhámos. Que a esperança e a serenidade nos invadiram nesse momento. 
E é por isso que não é só a dor e a tristeza que nos invadem quando em ti pensamos ou te recordamos. 

Porque foste/és um (re)começo. 

escrito a 7 de Julho 2013