18 setembro 2013

saudades de ter alguém que aqui está e não existe *






na incerteza que nada mais certo existe
além da grande incerteza de não estar certa de nada *




*Desfado - Ana Moura


17 setembro 2013

"Olá, disseste. E a terra começou a tremer." *




Afastado do lugar comum, escondido debaixo da terra como a raiz de qualquer planta, não te esqueças de guardar algo; que apenas depois da tua morte o mundo perceba a sua dimensão.


Segredo - Gonçalo M. Tavares in Breves notas sobre o medo




* in A Terceira Rosa - Manuel Alegre [2008...]

09 setembro 2013

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Um dia li num livro: «Viajar cura a melancolia».

(...)

Os anos passaram - como se apagam as estrelas cadentes — e, ainda hoje, não sei se viajar cura a melancolia. No entanto, persiste em mim aquela estranha impressão de que lera uma predestinação.

(...)


Viajar, se não cura a melancolia, pelo menos, purifica. Afasta o espírito do que é supérfluo e inútil; e o corpo reencontra a harmonia perdida - entre o homem e a terra.



Al Berto

02 setembro 2013

Carta a Alice #4

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~ nile-can-too


Foi  uma noite boa. Serena. Tranquila.  

Estar naquela varanda, onde fui feliz.  Onde li muito (imenso) sentada naquele chão, quente das tardes de Verão infernais. Onde fiz corridas com patos. Onde respirei o ar fresco (morno) das noites de Verão na minha infância. Cresci naquela varanda: li os livros da Anita, os Cinco, os Maias do Eça, a Aparição do Vergílio, e quantos mais... Aqueles Verões que pareciam intermináveis, as tardes quentes em que mal se respirava. O tempo que dava para tudo e ainda sobrava. O tempo que agora nos foge entre os dedos das mãos.  

Tenho saudades de crescer ali, naquelas noites frescas, naqueles degraus onde tanta emoção passou em mim . Onde chorei amores de adolescência, onde escrevi cartas de amor e desabafos num diário já destruído.


Tudo isso voltou com o fresco daquela noite, com o estar lá rodeada dos que amo. Tudo isso serena, tranquiliza, abre o coração. Mas as lágrimas... essas putas que teimam em aparecer  quando tudo parece melhor.  Senti-te a falta naquela varanda. Naquele silêncio da noite cheio de sons típicos da aldeia, naquele céu estrelado único (nunca encontrei outro igual...), no cheiro da noite de verão, naquele passado que queria para ti.  Senti-te a falta.  E os olhos inundaram-se de lágrimas (essas putas...), que caíram  sem pedir licença.

29 agosto 2013

Palavras #51



"Continuando: somos muitos ao mesmo tempo, somos aqueles que sonhamos, mas sobretudo aquilo que tememos e que desejamos."

Manuel António Pina - [aqui]



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26 agosto 2013

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"Há um tipo de choro bom e há outro ruim. O ruim é aquele em que as lágrimas correm sem parar e, no entanto, não dão alívio. Só esgotam e exaurem. Uma amiga perguntou-me, então, se não seria esse choro como o de uma criança com a angústia da fome. Era. Quando se está perto desse tipo de choro, é melhor procurar conter-se: não vai adiantar. É melhor tentar fazer-se de forte, e enfrentar. É difícil, mas ainda menos do que ir-se tornando exangue a ponto de empalidecer.
Mas nem sempre é necessário tornar-se forte. Temos que respeitar a nossa fraqueza. Então, são lágrimas suaves, de uma tristeza legítima à qual temos direito. Elas correm devagar e quando passam pelos lábios sente-se aquele gosto salgado, límpido, produto de nossa dor mais profunda."

Clarice Lispector

Carta a Alice #3

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let-it-di


Morreste-nos antes de viver. Antes dos teus pulmões sentirem o ar que respiramos.

Morreste-nos sem que tenhamos sentido o calor da tua pele. Sem que te tenhamos visto sorrir, chorar e gritar desalmadamente.

Morreste-nos para viveres nas lembranças nubladas dos nossos corações.