"As espécies que não desenvolveram a escrita valem-se da memória instintiva. O salmão sabe o caminho do lugar onde nasceu sem ter que consultar um parente ou um mapa.(...) Já o Homem pode ser definido como o animal que precisa tomar nota." Luís Fernando Veríssimo
06 outubro 2013
04 outubro 2013
about today
"Fim de tarde. Dia banal, terça, quarta-feira. Eu estava me sentindo muito triste. Você pode dizer que isso tem sido frequente demais, até mesmo um pouco (ou muito chato). Mas, que se há-de fazer, se eu estava mesmo muito triste? Tristeza-garoa, fininha, cortante, persistente, com alguns relâmpagos de catástrofe futura.
(...)
Resolvi andar. Andar e olhar. Sem pensar, só olhar: caras, fachadas, vitrinas, automóveis, nuvens, anjos bandidos, fadas piradas, descargas de monóxido de carbono.
(...)
Vim para casa humilde. Depois um amigo me chamou para ajudá-lo a cuidar da dor dele. Guardei a minha no bolso. E fui. Não por nobreza: cuidar dele faria com que eu esquecesse de mim. E fez. Quando gemeu "dói tanto", contei da moça vadia sozinha chorando, bebendo e fumando (como num bolero). E quando ele perguntou "por quê?", compreendi ainda mais. Falei: "Porque é daí que nascem as canções". E senti um amor imenso. Por tudo, sem pedir nada de volta. Não-ter pode ser bonito, descobri. Mas pergunto inseguro, assustado: a que será que se destina?"
Caio Fernando Abreu - Pálpebras de Neblina in Pequenas Epifanias
26 setembro 2013
unfold me (...) and breathe me *
Há dias em que a dor no peito se acumula de tal forma que dói, que sufoca. E o ar não entra e não sai. E é preciso pensar para respirar: "um,dois, inspirar" e logo de seguida "um, dois, expirar".
[suspiro]
E aí tudo acalma. O coração abranda. A dor atenua.
* Breathe me - Sia
Há dias em que a noite é longa, muito longa... e não termina depois do sol nascer.
Há dias em que podia ser só eu, a música, os teus braços e o teu peito. Só, mais nada.
23 setembro 2013
19 setembro 2013
da normalidade
A vida, para mim, sempre foi construída dos pequenos detalhes do dia a dia, das rotinas instaladas que, mesmo assim, são surpresas constantes. Olhando por cima do ombro sei que não são os grandes momentos que me definem. Não foram esses que me construíram. Foi cada minuto e segundo dos dias mais (aparentemente) aborrecidos que me talharam. O sorriso daquele cliente trombudo, o elogio vindo daquela pessoa para quem nada está bem, as mãos que se tocam enquanto se janta em silêncio, os olhares que se cruzam enquanto uma série se vê ou dois livros se lêem, o telefone, que toca sempre àquela hora apenas para perguntar: "Como estás?".
Hoje tenho medo do regresso a essa rotina, a essa normalidade, a esses dias que parecem sempre iguais. Olho e não quero acrescentar mais desses minutos que me constroem à minha vida. Queria aproveitar um pouco mais desta tristeza que salpica a minha vida feliz. Não queria essas camadas de normalidade em cima da lembrança, não queria esgravatar no meio das rotinas para encontrar a dor.
Mas é tempo [apesar das dores de corpo e da ansiedade que me assalta] de deixar que esse tempo de normalidade e de rotinas regresse. É tempo de me voltar a irritar e a sorrir com aquilo que os dias (aparentemente) iguais me vão trazendo.
18 setembro 2013
saudades de ter alguém que aqui está e não existe *
na incerteza que nada mais certo existe
além da grande incerteza de não estar certa de nada *
*Desfado - Ana Moura
17 setembro 2013
"Olá, disseste. E a terra começou a tremer." *
Afastado do lugar comum, escondido debaixo da terra como a raiz de qualquer planta, não te esqueças de guardar algo; que apenas depois da tua morte o mundo perceba a sua dimensão.
Segredo - Gonçalo M. Tavares in Breves notas sobre o medo
* in A Terceira Rosa - Manuel Alegre [2008...]
09 setembro 2013

Um dia li num livro: «Viajar cura a melancolia».
(...)
Os anos passaram - como se apagam as estrelas cadentes — e, ainda hoje, não sei se viajar cura a melancolia. No entanto, persiste em mim aquela estranha impressão de que lera uma predestinação.
(...)
Viajar, se não cura a melancolia, pelo menos, purifica. Afasta o espírito do que é supérfluo e inútil; e o corpo reencontra a harmonia perdida - entre o homem e a terra.
Al Berto
02 setembro 2013
Carta a Alice #4

~ nile-can-too
Foi uma noite boa.
Serena. Tranquila.
Estar naquela
varanda, onde fui feliz. Onde li muito
(imenso) sentada naquele chão, quente das tardes de Verão infernais. Onde fiz
corridas com patos. Onde respirei o ar fresco (morno) das noites de Verão na
minha infância. Cresci naquela varanda: li os livros da Anita, os Cinco, os
Maias do Eça, a Aparição do Vergílio, e quantos mais... Aqueles Verões que
pareciam intermináveis, as tardes quentes em que mal se respirava. O tempo que
dava para tudo e ainda sobrava. O tempo que agora nos foge entre os dedos das
mãos.
Tenho saudades de crescer ali, naquelas noites frescas,
naqueles degraus onde tanta emoção passou em mim . Onde chorei amores de
adolescência, onde escrevi cartas de amor e desabafos num diário já destruído.
Tudo isso voltou com o fresco daquela noite, com o estar lá
rodeada dos que amo. Tudo isso serena, tranquiliza, abre o coração. Mas as
lágrimas... essas putas que teimam em aparecer
quando tudo parece melhor.
Senti-te a falta naquela varanda. Naquele silêncio da noite cheio de
sons típicos da aldeia, naquele céu estrelado único (nunca encontrei outro
igual...), no cheiro da noite de verão, naquele passado que queria para ti. Senti-te a falta. E os olhos inundaram-se de lágrimas (essas
putas...), que caíram sem pedir licença.
01 setembro 2013
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