15 maio 2015

Palavras #56


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secret - biszkopciik




"Quando acordaram de manhã, na mesma cama, ela disse-lhe que queria ter um passado com ele. Não era um futuro, que é uma coisa incerta, mas um passado, que é isso que têm dois velhos depois de passarem uma vida juntos. Quando disse que queria ter um passado com alguém, queria dizer tudo. Não desejava uma incerteza, mas a História, a verdade."


Afonso Cruz in Jesus Cristo bebia cerveja

28 abril 2015

Incapacidade Expressiva #17


Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in “Obra Poética”



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09 abril 2015

Desencadeador de memórias #5


leve na lembrança
 (...)
 menina da lua









Quero te ver clara
Clareando a noite intensa deste amor
O céu é teu sorriso
No branco do teu rosto
A irradiar ternura

25 março 2015

"Vimos numa difícil missão..." *


"NÃO DIGAM A NINGUÉM"
Texto de António Alçada Baptista


Foi assim: ninguém tinha o telefone do Herberto Helder, eu só sabia o nome da rua porque tenho muita dificuldade em decorar números. Foi então que a Clara propôs irmos à procura do poeta na rua que eu tinha. Só havia dois prédios de habitação. Um deles, era quase uma torre e tinha um painel de campainhas. A Clara tocou uma delas, ao acaso. Daquela gradinha de rede veio uma voz. "Quem é?". A Clara perguntou se era da casa do poeta Herberto Helder. "Mas quem é?". Ela disse o seu nome. Então a porta abriu-se e nós subimos. A Olga estava à entrada da casa. Eu gosto muito da Olga, primeiro por ela e depois porque nos toma conta do Herberto. Digamos que ele faz parte do nosso Património e ela é a Conservadora. Eu disse-lhe baixinho: "Olga, o Herberto ganhou o Prémio Pessoa, são sete mil contos.

"Como é que isto vai ser?"

Ela fez-me uma cara de conformação e só com um gesto de cabeça fiquei a saber que não iria aceitar.

O Herberto estava na sala. Falou à Clara e depois a mim.

Eu disse, meio a brincar meio a sério: "Vimos numa difícil missão..."

Ele, com toda a simplicidade dele, disse-me logo que não, calculando que era um prémio.

Não foi possível demovê-lo e sentimos que aquilo era tão fundo e tão importante que não devíamos insistir. Ele disse:

"Vocês não digam a ninguém e dêem o prémio a outro... "

"Não pode ser, o júri escolheu-te a ti, a decisão está tomada; respeitamos que digas que não... "

Ele ainda acrescentou:

"Peço que vocês sejam meus mandatários e digam ao júri que eu agradeço mas não posso aceitar"

Eu queria transmitir bem que não havia aqui nenhuma arrogância: a sua recusa não era contra ninguém. Era uma decisão do seu mais íntimo, que logo nos mereceu o maior respeito. Eu só lhe disse: "Eu já gostava de ti e vi agora que é possível ainda gostar mais..."

A Clara falou muito com ele porque ambos gostavam de se conhecer. Ela sabe fazer conversas inteligentes como se fossem banais. A certa altura viemos embora com alguma comoção por dentro e desabafámos no carro.

"Já ninguém faz isto... "

"Todos ganhámos este prémio. Quando a regra é a procura de dinheiro, é bonito que um homem pobre dê exemplos assim. "

Eu, confesso que passou pela cabeça de um bocadinho de mim que ele pudesse aceitar o prémio. Sempre eram sete mil contos. Talvez uma segurança até ao fim da vida. A verdade é que quase me apeteceu voltar atrás e pedir-lhe desculpa por este "mau pensamento". Mas eu era um homem feliz: o Herberto não nos deixou ficar mal...


24 março 2015

Palavras #55

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 RafiMI



Regresso devagar ao teu 
sorriso como quem volta a casa. 
Faço de conta que não é nada comigo. 
Distraído percorro 
o caminho familiar da saudade, 
pequeninas coisas me prendem, 
uma tarde num café, um livro. 
Devagar te amo e às vezes depressa, 
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo, 
regresso devagar a tua casa, 
compro um livro, entro no 
amor como em casa. 


Manuel António Pina




20 março 2015

do nosso caminho




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do nosso primeiro dia de Primavera






Lembra, meu filho, passou, passará
Essa certeza, a ciência nos dá
Que vai chover quando o sol se cansar
Para que flores não faltem

Marisa Monte - O Rio



12 fevereiro 2015

26 janeiro 2015

Carta a Alice # 16




"Senti, então, pela primeira vez, como a morte pode ser redenção, e soube, também, como a morte é resgate e paz."

in A Herança de Eszter - Sándor Márai




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E a água começou a escorrer pela face, ao mesmo tempo que o sorriso era feliz e honesto, como nunca o foi antes de ti.

É nisto que estás, que permaneces, que permanecerás. Nesta mistura de sentimentos contraditórios: do sim e do não, do "e se eu" e do "nada havia a fazer", da dor e da felicidade, da lágrima e do sorriso, da chuva e do sol, que juntos resultam no arco-íris. Tu estás em todas essas contradições que nos trespassam, que nos afligem e nos acalmam. 

Tu és esse arco-íris, o nosso.


Digo-te em surdina: "não duvides que farás sempre parte de nós" [relembrando-o também a mim própria, quando a culpa me assalta].



23 janeiro 2015

do céu [e da vida] *




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* que nunca seria tão bonito [a] se fosse apenas azul, sem nuvens

22 janeiro 2015

just breathe*








inspirar amor profundo




expirar gratidão






 * Pearl Jam