
Lendo isto, recordei uma pequena história de Alçada Baptista:
A vírgula que faltava
O José Cutileiro fazia bons versos. Se calhar ainda faz. Ele tem mesmo um livro publicado na Guimarães Editores onde se lê poesia de qualidade. Às vezes lia-nos os poemas. Uma vez, ia-nos ler um soneto, a mim e ao Alexandre O'Neill e começou assim, cheio de solenidade:
«De ti me sirvo amor como de tudo...»
Então o Alexandre disse: - Ó Zé, falta aí uma vírgula: «De ti me sirvo amor, vírgula», e depois, abriu os braços, e num ar conformado terminou: «como de tudo...»
Mas as interrupções de poemas não ficam por aqui. Uma vez ele estava a descer a Avenida da Liberdade com o Alexandre Pinheiro Torres. Naquele tempo a gente quando tinha fome dizia «estou com uma traça!». Pois o Pinheiro Torres estava a dizer-lhe um poema que a certa altura dizia:
«A rota, a traça...»
O Alexandre interrompeu-o:
- Ó Pinheiro Torres, isso de arrotar a própria traça não será fome a mais?!
in A Cor dos dias - António Alçada Baptista








