20 maio 2015

Escrito para ti #3




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fairy tale wonders - blackjack0919




Quero falar-te hoje de algumas coisas bonitas que vais encontrar cá fora, no nosso mundo [que em breve será também teu].

Podes dizer-me, um dia mais tarde, que isto não tem nada de bonito, mas acredito que um dia, ainda mais tarde, até naquilo que te parecia mais feio encontrarás algo (por vezes grandiosamente) belo.

O céu é maravilhoso de ser olhado. Quer seja de noite ou dia. Quer esteja completamente azul ou com nuvens brancas, cinzentas ou vermelhas a pontuá-lo, ou a preenchê-lo completamente. 

O cheiro do mundo. Essa mescla onde vais conseguir descortinar o perfume das flores, a terra molhada, o café, a roupa acabada de lavar, o cheiro daqueles de amas e daquela pessoa que te completará.

Aquelas ervas que crescem por todo o lado (sim, as daninhas) até essas têm flores, folhas e caules merecedoras de ser olhadas e admiradas. 

É só querer. Ouve bem: é só querer olhar, tocar, cheirar, ouvir e saborear sem medos e sem preconceitos. Assim sentirás a plenitude do mundo, o belo apesar do quão atroz pode ser (porque isso também vais descobrir). Ouve a música e as palavras, sente a chuva e o lusco-fusco, cheira a vida. Vive.

É só querer, é só abrires-te e não deixar que a amargura te invada. E assim, mesmo que a dor te atinja, poderás encontrar o belo e sentir a leveza que é a vida. 

Que sejas leve rapaz, que nasças leve, e que assim vás permanecendo ao longo da tua vida.



19 maio 2015

Carta a Alice #17



"Através do teu coração
passou um barco
que não pára de seguir
sem ti o seu caminho."

Sophia de Mello  Breyner Andresen




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Every Step We Take, We Grow - blackjack019




Fomos navegando desde que nasceste [morreste, desde que nos morreste...], um pouco à deriva no início, mas depois com mais consciência. Consciência essa que nos deste, apesar de não teres permanecido connosco. Consciência essa que foi crescendo com a percepção de que permanecerias [e permanecerás...] de uma forma diferente.

A partir deste momento fomos, lentamente, navegando da noite para o dia, da Lua para o Sol. Porque a vida não pára [assim como o barco...], e não avança sozinha, sem nós.

Custa a consciencialização de que não podemos manter-nos na noite. É como se todo este tempo tivéssemos vivido sob um eclipse solar e, de repente, nos déssemos conta que essa luz não é suficiente para fazer florescer as flores, para alimentar a vida.

É tempo de dizer-te adeus, a ti, a menina que não quis ser grande. 

Sem esquecimento, sem dor, sem remorsos e sabendo-te o princípio de tudo.



[aos 22 de Abril de 2015]


18 maio 2015

Escrito para ti #2

[aos 7 de Março de 2015]




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serenity - Nikander



Aos poucos vais tomando forma na nossa vida, principalmente na nossa razão. No nosso coração estás lá desde o primeiro momento. Não tenho a certeza se o és, se o serás, mas sinto-te tão sereno, tão pacífico e isso deixa-me confortada e confiante que ficarás e permanecerás de forma diferente.

Sinto-te tão próximo, tão relaxado, que não posso deixar de sentir confiança e serenidade.

É como se tivesses vindo para restaurar, verdadeiramente, a confiança na vida. Como se o brilho do sol agora fosse diferente, mais verdadeiro, mais quente. Como se os pingos de chuva agora realmente molhassem.Como se a vida fosse plenamente restaurada. 

E agora, finalmente, é possível voltar a fechar os olhos e acreditar.



16 maio 2015

I'll take your part when darkness comes




Escrito para ti #1



[aos 26 de Setembro de 2014]




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fragile - Lee Yeon




Devagar, bem devagar, com um minuto a suceder-se ao outro, tudo se vai compondo. Estes dias, longe da realidade, permitem isso. Apreciar os minutos que se sucedem, sem pressas e sem agitações. Tudo se vai sedimentando. Os sentimentos atribulados, contraditórios e a ansiedade vão dando lugar à quietude e à certeza de que o universo (mal ou bem) conspira sempre a nosso favor.

Vais crescendo devagar e com a serenidade nossa que a tua irmã nos deixou. Foi essa uma das suas principais heranças. A par de conhecermos uma outra felicidade, uma outra dor, ela preparou-nos para ti. 

Devagar. Um minuto de cada vez. Uma respiração a seguir à outra.



15 maio 2015

Palavras #56


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secret - biszkopciik




"Quando acordaram de manhã, na mesma cama, ela disse-lhe que queria ter um passado com ele. Não era um futuro, que é uma coisa incerta, mas um passado, que é isso que têm dois velhos depois de passarem uma vida juntos. Quando disse que queria ter um passado com alguém, queria dizer tudo. Não desejava uma incerteza, mas a História, a verdade."


Afonso Cruz in Jesus Cristo bebia cerveja

28 abril 2015

Incapacidade Expressiva #17


Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in “Obra Poética”



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09 abril 2015

Desencadeador de memórias #5


leve na lembrança
 (...)
 menina da lua









Quero te ver clara
Clareando a noite intensa deste amor
O céu é teu sorriso
No branco do teu rosto
A irradiar ternura

25 março 2015

"Vimos numa difícil missão..." *


"NÃO DIGAM A NINGUÉM"
Texto de António Alçada Baptista


Foi assim: ninguém tinha o telefone do Herberto Helder, eu só sabia o nome da rua porque tenho muita dificuldade em decorar números. Foi então que a Clara propôs irmos à procura do poeta na rua que eu tinha. Só havia dois prédios de habitação. Um deles, era quase uma torre e tinha um painel de campainhas. A Clara tocou uma delas, ao acaso. Daquela gradinha de rede veio uma voz. "Quem é?". A Clara perguntou se era da casa do poeta Herberto Helder. "Mas quem é?". Ela disse o seu nome. Então a porta abriu-se e nós subimos. A Olga estava à entrada da casa. Eu gosto muito da Olga, primeiro por ela e depois porque nos toma conta do Herberto. Digamos que ele faz parte do nosso Património e ela é a Conservadora. Eu disse-lhe baixinho: "Olga, o Herberto ganhou o Prémio Pessoa, são sete mil contos.

"Como é que isto vai ser?"

Ela fez-me uma cara de conformação e só com um gesto de cabeça fiquei a saber que não iria aceitar.

O Herberto estava na sala. Falou à Clara e depois a mim.

Eu disse, meio a brincar meio a sério: "Vimos numa difícil missão..."

Ele, com toda a simplicidade dele, disse-me logo que não, calculando que era um prémio.

Não foi possível demovê-lo e sentimos que aquilo era tão fundo e tão importante que não devíamos insistir. Ele disse:

"Vocês não digam a ninguém e dêem o prémio a outro... "

"Não pode ser, o júri escolheu-te a ti, a decisão está tomada; respeitamos que digas que não... "

Ele ainda acrescentou:

"Peço que vocês sejam meus mandatários e digam ao júri que eu agradeço mas não posso aceitar"

Eu queria transmitir bem que não havia aqui nenhuma arrogância: a sua recusa não era contra ninguém. Era uma decisão do seu mais íntimo, que logo nos mereceu o maior respeito. Eu só lhe disse: "Eu já gostava de ti e vi agora que é possível ainda gostar mais..."

A Clara falou muito com ele porque ambos gostavam de se conhecer. Ela sabe fazer conversas inteligentes como se fossem banais. A certa altura viemos embora com alguma comoção por dentro e desabafámos no carro.

"Já ninguém faz isto... "

"Todos ganhámos este prémio. Quando a regra é a procura de dinheiro, é bonito que um homem pobre dê exemplos assim. "

Eu, confesso que passou pela cabeça de um bocadinho de mim que ele pudesse aceitar o prémio. Sempre eram sete mil contos. Talvez uma segurança até ao fim da vida. A verdade é que quase me apeteceu voltar atrás e pedir-lhe desculpa por este "mau pensamento". Mas eu era um homem feliz: o Herberto não nos deixou ficar mal...


24 março 2015

Palavras #55

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 RafiMI



Regresso devagar ao teu 
sorriso como quem volta a casa. 
Faço de conta que não é nada comigo. 
Distraído percorro 
o caminho familiar da saudade, 
pequeninas coisas me prendem, 
uma tarde num café, um livro. 
Devagar te amo e às vezes depressa, 
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo, 
regresso devagar a tua casa, 
compro um livro, entro no 
amor como em casa. 


Manuel António Pina