04 janeiro 2007

Giraffe, Botswana - Jacob Halaska

O meu marido é um apaixonado por caça, mas não a caça a que estamos habituados. O que ele gosta mesmo é de caça grossa, grandes safaris, de preferência em África. Foi uma paixão que sempre me incomodou e que ainda me é difícil compreender. Nunca se consegue um marido perfeito não é verdade?!
Foram raras as viagens em que o acompanhei. Além de nunca ter sentido aquele fascínio que alguns têm por África, e da minha vida profissional ser muito absorvente, só a ideia do animal a cair pelo chão, pelo simples prazer de matar, repugnava-me profundamente.
Os anos foram passando, fomos os dois ficando mais velhos, mas a paixão do meu marido pela caça nunca amainou (ao contrário de outras…). Na sua última viagem resolvi acompanhá-lo. Já tinha percorrido quase todo o mundo e África era um carimbo que faltava no meu passaporte. O destino escolhido foi o Botswana.
Quando chegámos comecei a sentir o calor insuportável, a humidade exagerada. Acho que me arrependi nesse mesmo momento de ter viajado.
O meu marido e os amigos partiram no dia seguinte para a sua grande aventura. Fiquei no hotel (de luxo claro, pois não viajo de outra forma) no centro da capital Gaborone, mas ao fim do primeiro dia já estava entediada. Resolvi sair ao acaso, perder-me pela cidade. Ao andar pela rua entrei por coincidência num hospital. Achei estranho: uma quantidade enorme de crianças estava nesse hospital mas não pareciam doentes. Encontrei uma enfermeira que falava inglês. Muito simpática explicou-me o porquê: todas aquelas crianças tinham o vírus HIV. Mas tanta? Questionei eu. Ela sorriu e perguntou-me se não gostaria de voltar lá no dia seguinte. Poderemos falar com mais calma. Acedi. Porque não voltar? Não tinha assim tanto para fazer. No dia seguinte voltei e consegui perceber.
Depois retornei sempre até ao dia em que o meu marido voltou da sua grande aventura. Vinha excitado e entusiasmado pois tinha conseguido abater um elefante. Estavam todos excitadíssimos e não me deram hipótese de contar a minha aventura.
Na viagem de regresso, no avião, enquanto todos dormiam, não conseguia deixar de pensar que estamos todos a abater um animal de grande porte e ninguém pára para ouvir os seus pedidos de ajuda. Raios, como odeio a caça.

*texto iniciado no dia 1 Dezembro 2006 - Dia Mundial da Luta Contra a Sida

Part I - Disaster in Denial
Part II - Turning the tide

9 comentários:

JFDourado disse...

enquanto reinar a cleptocracia e a corrupção dificilmente haverá mudanças no continente africano... mas a culpa não é só deles...

tentini disse...

ana, ja me conheces e deves te lembrar eu ja ter dito isto várias vezes...

exsite muita humanização e pouca humanidade...

Ticha disse...

Gosto de te ler... :)

Ana disse...

Uma ajuda aqui, uma mudança ali e acredito que chegaremos lá:)...

@lguém de passagem... disse...

Ana, é pena que as superpotências só se lembrem de África pelas suas riquezas e deixem morrer os seus povos à fome e à guerra, por falta de solidariedade...
Concordo contigo quando dizes "uma ajuda aqui, uma mudança ali e acredito que chegaremos lá"! Também quero acreditar nisso! E é por isso que acho tão importante a obra das ONGD's. E não menos importante é o nosso papel enquanto cidadãos para a sensibilização das opiniões das mentes anestesiadas!

Suponho que tenhas sido tu a escrever este texto tão absorvente! Se assim o foi, só tenho a dizer para continuares. É sempre agradável descobrir talentos na escrita... Já pensaste em escrever um livro?

Ana disse...

Pois,às vezes escrevo umas coisas, assim como este texto, quando a vontade aperta:)
Mas prefiro mil vezes ler e deixar a escrita para quem realmente tem esse dom;)

@lguém de passagem... disse...

Não sejas tão modesta... ;)
Reconhecer as nossas capacidades e qualidades também é um dom! :)

Ana disse...

Claro que é:) mas reconhecer as limitações também. Há alturas em que que os textos fluem, noutras nem por isso... De quando em quando sabe-me bem escrever, e acho que os textos são agradáveis de ler, mas não é uma constante.
Há aqueles para quem escrever é uma necessidade, tão básica como respirar. Para esses a escrita é um dom. Não é o meu caso;)

@lguém de passagem... disse...

;)